Como eu passo o link do blog pra várias pessoas, achei mais pratico deixar logo de cara a forma certa de ler... Pois a maioria le primeiro o que está na primeira página e vai lendo as postagens antigas e com isso não conseguem entender nada.... Então eu tenho sempre que dizer pra ler primeiro o prólogo, depois a introdução, depois o 1 e o 2° capítulo e por ultimo os ultimos capitulos... Então achei mais prático deixar tudo juntinho pra ninguém se confundir e conseguir entender o que eu escrevi... Já falo que o livro não está completo aqui, pois a minha intenção é publicá-lo na forma de livro mesmo o mais breve possível, já estou quase no final e no momento ele conta com 33 capitulos. Espero que todos gostem e por favor deixem comentários nesse post, independente se gostou ou não do livro, expresse sua opnião e se caso achar que eu deveria mudar alguma coisa, podem escrever também... Com os comentários iria me ajudar a conseguir publicá-lo e então vocês conseguiriam ler tudo o que escrevi...
Obrigada a todos e boa leitura....
Prólogo: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com/2010/12/prologo.html
Introdução: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com/2011/06/introducao.html
1° Capítulo: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com/2011/01/1-capitulo-leia-primeiro-o-prologo.html
2° Capítulo: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com/2011/04/2-capitulo.html
3° Capítulo: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com.br/2012/08/3-capitulo.html
4° Capítulo: http://www.anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com.br/2012/08/4-capitulo.html
5° Capítulo: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com.br/2012/08/5-capitulo.html
6° Capítulo: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com.br/2012/08/6-capitulo.html
Trecho dos últimos capítulos: http://anjosedemoniostambemseamam.blogspot.com/2011/06/ultimos-capitulos-para-meu-anjo.html
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
6° Capítulo
Acordei por volta das 10:00, me arrumei e fui pra galeria do rock aumentar meu alargador de 1 pra 3. Logo depois entrei no trabalho e como era de se esperar, fiquei pensativa o dia inteiro. Sentei-me à mesa ao lado da porta, longe de tudo e de todos. Não sabia se naquele dia eu ia sair realmente com o Ariel, ou iria acontecer igual à noite passada.
O dia passou devagar, mas finalmente mais um dia de trabalho se fora. Desci na liberdade e liguei pro Ariel, que estava me esperando com alguns dos nossos amigos em comum na frente da porta do trabalho. Fomos pro bar do metrô jogar conversa fora e tomar algumas cervejinhas também. Uma situação cômica e um tanto quanto bizarra. O Ariel se sentou à mesa e sem querer derrubou tudo o que tinha nela, inclusive um copo que ele conseguiu deixar vazado, - ele deixou duas pontas no copo perfeitamente iguais, uma de frente com a outra, formando um arco no formato de lua deitada dos dois lados.
Antes de irmos pro hotel, passamos no Habbib’s e compramos algumas esfihas pra levar caso ficássemos com fome mais tarde. É estranho, mas é nas situações mais grotescas que percebemos que o problema está com a gente, e não com o outro. Me senti a mulher mais feliz naquele momento.
- Não acredito nisso, que porcaria! Justo hoje!?
- O que foi Cherry? Algum problema?
- Nada, é que tipo... Agora eu é que acho que não vai rolar nada.
- Por quê?
- Ahn... Acabou de descer pra mim! Quer motivo maior!?
- Ah, é isso. Relaxa. Acontece, não tem problema nenhum.
- Pra você não, mas pra mim tem. É nojento isso Ariel, sério!
- Mas é normal e eu não tenho nojo de você Cherry. Esquece isso, vem cá vem! – Ele me deu um abraço e um beijo que me fez ver estrelas.
Qualquer mulher no meu lugar sentiria a mesma coisa que eu. Eu me senti tão querida que nem pensei mais na situação. Não sei se com todas as mulheres são assim, mas eu quando estou naqueles dias me sinto mais fogosa. A maioria dos homens não gosta de fazer nada quando a mulher está naqueles dias, justamente por ser uma coisa nojenta, é normal sim, mas não deixa de ser nojenta. Depois de um tempo ligamos a TV e ficamos assistindo um filme tosco que estava passando, é engraçado como de madrugada só passa filme sem nexo.
- Sabe, um amigo meu esses dias me disse que às vezes ele vai no Hotel e fica jogando baralho ou vendo TV! – Eu comentei pra descontrair.
- Mas é gostoso, pra relaxar.
- Você não entendeu. Ele vai APENAS pra jogar baralho e ver TV! Pô, se é pra fazer isso que fiquei em casa, pelo menos você não gasta dinheiro.
- Se ele não se importa em usar o dinheiro dele desse jeito.
Começamos a tentar prestar atenção no filme quando começamos a ouvir uns barulhos estranhos no quarto vizinho. Abaixamos o volume da TV e começamos a tentar ouvir o que o suposto “casal” estava dizendo.
- Você tá ouvindo? – O Ariel me perguntou.
- Sim, tipo... O cara tá espancando ela, só pode.
- Há, com certeza.
- Não foi você que me disse um dia que ficou com uma mina que pediu uma surra praticamente!? Então, acho que ela estava pedindo essa surra... haha
- Claro, claro. Ei, eu acho que tem dois caras lá com ela.
- É mesmo, tem duas vozes masculinas diferentes.
- É uma puta que tá lá dentro.
- Com dois caras, o que mais poderia ser!?
De repente ouvimos alguma coisa como:
- Assim não dá meu, tem sangue ai.
- Mas já tá no final, eu juro.
- Não vai rolar com sangue não. Na boa.
Então ouvimos o primeiro indo tomar banho, logo em seguida foi o segundo. Então eles começaram a falar sobre chamar a polícia pelo motivo que nem o Ariel e nem eu conseguimos entender.
- Ahá! Era o que me faltava, a gente tá aqui de boa e vem esses bestas ai pra estragar. Poxa, faz o serviço e vai embora meu. Se não quer também, vai embora. – Eu disse com a voz um pouco alterada.
- Ahn? Como assim?
- Já imaginou. A gente tá aqui tranqüilo, curtindo a noite sem atrapalhar ninguém, ai chega a polícia. Não vai ter clima mais, mesmo que a gente nem saia daqui.
- Mas é porque eles não querem pagar o preço pra ela, porque ela tá naqueles dias.
- Hoje é o dia pras mulheres ficarem naqueles dias. Chega a ser cômico uma coisa dessas. Mas mesmo assim, não quer vai embora.
- E acho que são três e não dois.
- Nossa, onde tem tanto lugar assim!? Bom, deixa quieto, melhor nem pensar. – Dei uma risada baixa. – Deixa esses quatro pra lá, aumenta o volume da TV vai.
- Vem cá vem, fica abraçadinha comigo aqui.
Ficamos alguns segundos em silêncio quando ele comentou:
- Sabe Cherry, a gente forma um bom casal. A gente combina.
- Eu sei. Por que você gosta dela e não de mim? Nós somos perfeitos juntos.
- Esquece isso Cherry, deixa essa história pra lá.
- Como posso conseguir deixar pra lá se eu sei que isso é verdade!?
- Porque quem está aqui comigo é você e não ela.
- Mas você queria que fosse ela. Poderia ser ela.
- Prefiro assim, e não é ela que está aqui, é você. Eu já disse.
- Ela não parece ser do tipo que você iria gostar.
- Como assim?
- Não sei, ela aparenta ser muito meiguinha, certinha, sei lá.
- Mas você também é.
- Tá, você entendeu vai. Pra ser mais franca, ela é meio boba.
- Entendi sim.. Podemos falar de outra coisa então?
Fiquei pensando, se ele achava que nós formávamos um bom casal, por que ele não poderia arriscar comigo? Eu não conseguia entender direito o que se passava dentro da cabeça dele.
Enquanto ele dormia, eu comecei a fazer carinho nele e fiquei pensando nas coisas em que gostamos de fazer. Nós éramos do mesmo mundo, somos iguais e no que somos diferentes completamos um ao outro, então porque não daria certo? Temos todos os pontos positivos pra isso acontecer. Mas eu preferia deixar ele perceber isso sozinho, eu já havia entendido que não adiantaria eu falar, eu teria que deixá-lo enxergar sozinho, mesmo sabendo que não iríamos ficar juntos.
Amanheceu, tomamos uma ducha e fomos embora. Demos uma passada na padaria, eu comprei um maço de cigarro e ele comprou um refrigerante. Tomei um gole e sentamos na mesinha do lado de fora.
- Você vai chegar atrasada não vai?
- Vou, mas de sábado é tranqüilo lá, não se preocupe com isso. Mesmo porque prefiro ficar com você até o último minuto.
Fiquei aera por um momento e então ele disse:
- Bom, eu vou subir porque você sabe que aqui, mesmo de sábado é a mesma coisa.
- Tá, eu to indo também, não quero chegar tão atrasada.
- Me dá um abraço aqui.
Despedimo-nos e eu segui para o metrô. Cheguei por volta das 10:20 no trabalho. Achei que não houvesse ninguém na sala. Percebi que alguns estavam no fundo. No meu setor só tinham quatro pessoas, o Jey, o Henrique, o Almir e o Alison. Nós somos em aproximadamente quinze pessoas e não tinha nem a metade.
- Nossa, tipo... Cadê o povo? Ninguém vem trabalhar mais não é? - Eu perguntei olhando pros quatro esperando a resposta de algum deles.
- Quando eu cheguei tava tudo vazio aqui dentro. – Comentou o Alison.
- Quem vê de fora pensa que não tem ninguém aqui dentro – Completou Henrique.
- O povo deve ter bebido muito ontem e não agüentou vim trabalhar- Concluiu o Almir.
- Quando eu entrei achei que estivesse vazio mesmo, tanto que fiquei parada por um tempo na porta sem ação, não sabia se entrava ou se ia embora, lá fora também tá quase tudo vazio.
- Mas você não pode falar nada, já são 10:30, chegou atrasada também né Cherry?! – Disse o Jey.
- Nem tanto vai. Tem dias que chego mais atrasada.
- É mesmo Cherry e você está com a mesma roupa de ontem. Dormiu fora é? – Perguntou Almir.
- Eu nem dormi direito ainda, to morta de sono.
- A noite deve ter sido boa então! – Henrique
- Foi sim, foi ótima.
- Onde é que você foi hein danadinha?
- Já esta querendo saber demais não acha?
- Foi mal, perguntei por curiosidade.
- To brincando. Eu saí com o Ariel ontem.
- Então está explicado.
Aos poucos mais pessoas começaram a chegar, porém, como de praxe, sempre tinha alguém faltando, nunca estavam todos. Fui para a liberdade comprar alguns esmaltes. Começou a chover, e nesse dia não me incomodei em chegar molhada em casa. Senti como se a chuva tivesse limpado todos meus pensamentos.
5° Capítulo
Eu estava de volta no meu jardim com ele. O cheiro do jardim se misturava ao dele, ficando assim um cheiro do qual eu nunca tinha sentido. Eu estava feliz ao lado dele novamente. Nós corríamos de um lado pro outro, como duas crianças. Deitamos na grama e ficamos nos olhando por um bom tempo. Afinal, tínhamos a eternidade para sermos felizes novamente.
E como já era de se esperar, pra minha decepção eu me vi deitada na mesma cama, no mesmo quarto, na mesma casa que eu me deitava pra dormir todas as noites, e percebi que eu estava sonhando, lembranças de uma época que não voltará. E então começou mais um dia de trabalho. Levantei da cama e como se fosse um ritual, desci as escadas e acendi um cigarro. Me arrumei, coloquei meu fone de ouvido e fui rumo ao trabalho. Chegando lá eu fiquei distante das pessoas e aos poucos foram percebendo.
- Você tá bem Mayara? – Perguntou Henrique.
- To sim, problemas pessoais, mas vai passar.
- Ah tá! Se você quiser conversar com alguém, você sabe que pode contar comigo né!?
- Obrigada Rick.
- Eu não gosto de te ver tão quieta desse jeito.
Eu dei um sorrisinho e sentei na minha mesa.
Fiquei a tarde inteira pensando em como o mundo era pequeno. Não conversei com ninguém, tirei minhas pausas sozinha, apesar de não fazer muita questão de tirá-las, eu tinha que tirar pelo menos pra respirar um pouco de ar puro. - ou pelo menos o mais parecido com ar puro. - Todos tinham percebido que eu não estava bem. Eu fiquei a tarde inteira pensativa, quieta e sem conversar com ninguém. No caminho pro metrô o Jey me perguntou:
- E ai Cherry? O que houve que você está tristinha hoje? É a história do maluco lá?
- É, eu ainda to tentando entender o que é que aconteceu. Eu to com medo de perder ele de novo.
- Esquece essa história Cherry, você sabe que o que tiver que ser vai ser. Você nem sabe se o cara que você tá saindo vai ficar com ela mesmo.
- Eu sei Jey, eu sei o que vai acontecer, eu vi. Mas não estou preocupada com isso. Eu estou preocupada com o Ariel, ele vai sofrer muito ainda.
- Cherry, esquece essa história. Deixa as coisas acontecerem. Hoje você ouviu o Elias, esse mês eles não querem ver ninguém zerado e você não vendeu nenhum hoje.
- Mas é difícil esquecer assim. Eu sei que eles não vão ficar nem nada, mas ele gosta dela ainda, e depois disso tudo, eu sei que se ela desse uma chance pra ele, pode ser que ele aceitasse.
- Então ele não gosta de você Cherry.
- Gostar ele gosta de mim, mas ele gosta dela primeiro. A gente não namora, mas é difícil ver ele sofrer assim. Mais difícil ainda é saber tudo o que ela vai falar pra ele, ele vai sofrer muito com isso.
- Mas Cherry, você começou a ficar com ele não faz nem duas semanas direito e já tá assim?
- É complicado Jey. Talvez quando eu terminar meu livro você entenda melhor o que eu sinto por ele.
- Eu falo isso porque eu gosto de você Cherry. Você é uma pessoa bacana e que merece ser muito feliz. Não fica pensando muito nisso porque só vai te prejudicar.
- Obrigada Jey, também gosto de você e te acho bacana também. Mas, sei lá... é complicado. Enfim, acho que o tempo é quem dirá o que vai acontecer realmente. Apesar de que eu já sei que não vou ficar com ele, ele não vai ficar com ela também, mas até ele perceber as coisas vai ser muito dolorido pra ele.
Quando eu cheguei em casa, entrei na internet e passei a primeira parte do meu livro pro computador. Naquele momento o que me manteve em pé e me distraia, era pegar meu caderno e começar a escrever.
Alguns dias depois eu consegui finalmente falar quase tudo pra Thaisa. Ela continuava muito abalada, o que eu já esperava. E eu sei que isso ia passar. Eu contei a história de uma forma e ele contou de outra totalmente diferente, então eu disse que ela teria liberdade pra escolher em quem ela acreditaria, é claro que ela preferiu acreditar nele. Eu disse que ela era uma menina bonita, e que não merecia passar por isso. Apesar de que cada um é cada um, se ela prefere ser iludida por ele, a consciência é dela. Ela deve saber muito bem aonde está pisando.
- Talvez você se impediu de ser feliz, justamente por estar com ele Thaisa.
- Você está falando do Ariel?
- Sim, eu sei que você sabe que ele gosta de você.
- Sim, eu sei. Mas eu não fiquei com ele porque eu não quis, não porque eu estava com o Roberto. Eu considero o Ariel como amigo. Tenho um carinho como amiga por ele. Nada mais que isso.
Eu sabia que ela não iria dar uma chance pro Ariel, mas eu me sentia triste pelo Ariel. Me sentia aliviada por ouvir dela essas palavras, mas meu coração ao mesmo tempo estava triste, porque o amor que eu queria ter dele, ele tinha por ela.
Eu esperei tanto pelo dia da minha despedida com o Ariel e quando esse dia chegou eu não conseguia pensar em mais nada. Eu havia comprado um livro pra dar de presente pra ele e antes de ir pro trabalho fui correndo na papelaria comprar uma caixa de presentes. Todos do trabalho já sabiam que eu ia me encontrar com ele, e começaram a dizer:
- A noite vai ser boa hein Cherry. Quero ver a hora que vai chegar amanhã.
- Será que eles vão se prender no quarto de novo? Aproveita hein.
Quando chegou o horário de ir embora, fui correndo me encontrar com ele nas escadas de fora do metrô liberdade. Quando eu cheguei minha alegria se transformou em tristeza. Ele estava parado na escada conversando com ela. Eu sabia o que ela estava falando com ele, e isso me deixou cabisbaixa, pois eu sabia que naquele dia eu não teria nenhuma chance de ter alguma coisa a mais com ele. Eu pensei sinceramente em voltar e esperar ela ir embora, mas eles já tinham me visto, então não tive escolha. Segui reto subindo as escadas como se eu estivesse morrendo. Subi lentamente cada degrau. Então quando eu estava no topo eu não sabia se eu apenas falava oi pros dois, se dava um beijo no rosto de cada um e em quem eu daria primeiro, se eu desse um beijo nele e nela não, iria ficar estranho. Se eu desse um beijo no rosto dele primeiro e depois no dela, provavelmente iria ficar parecendo que eu estava querendo demarcar território. Então decidi cumprimentá-la primeiro e depois ele. Tudo bem que ela praticamente virou o rosto pra mim, mas fingi que nem percebi.
Só foi estranho, porque eu me senti como se eu fosse uma intrusa na frente dos dois, tenho certeza que eles pararam a conversa no momento em que me viram subir as escadas. Provavelmente estavam falando dos dois ainda. Enfim, eu achei que o meu dia fosse começar ali, mas ao contrário de começar, ele acabou ali. Logo depois ela foi embora e ficamos eu e ele sozinhos.
Levantei a mão esquerda onde estava pendurada a caixinha de presentes dentro de uma sacola plástica da papelaria.
- Seu presente!
- O que é isso?
- Eu não sei se você vai gostar, eu tenho um também. Comecei a ler segunda e até agora eu to gostando apesar da leitura ser um pouco complicada. – eu desisti quando cheguei na página 50.
Ele abriu a caixinha, na qual havia na parte de cima da tampa um cachorrinho do lado esquerdo todo peludinho, com pelos lisinhos, o rosto era branquinho só com uma bolinha em volta dos olhos na cor marrom. Do lado direito tinha um gatinho misturado com cinza e branco. E nas laterais da caixa tinha escrito “Eu e você” de um lado e “Juntos para Sempre” do outro lado.
- Você não acha que é muito romance pra mim não?
- Não, porque você é romântico.
- “O Morro dos Ventos Uivantes”! Legal, é a mesma autora do “Crepúsculo”.
- Não, você leu errado. Tá escrito que é “O livro favorito de Bella e Edward da série Crepúsculo”.
A maioria das pessoas sabe que esse livro é um clássico da literatura inglesa, mas era uma nova edição. Tinha uma capa preta com o nome da autora e o nome do livro na parte de cima com letras engraçadas na cor branca e o desenho no meio era uma flor branca muito linda. Em baixo tinha os dizeres escrito em vermelho: “O amor nunca morre”.
- Eu só vou ler porque você me deu, e depois vou guardá-lo com todo o carinho.
- Esse livro é um clássico, se a sua mãe ver que você tá lendo ele...
- Ela vai achar que eu estou apaixonado – Ele me interrompeu.
- Não, ela vai achar que você está louco. Haha. Ela deve conhecer a história do livro, é da época dela.
- Mas a minha mãe não é velha.
- Não importa, qualquer pessoa com no mínimo 30 anos de idade conhece um pouco da história, pelo menos já ouviu falar do livro.
Conversamos por mais um tempo, e ainda não tínhamos nos beijado ainda. Então ele comentou:
- Eu não acho que vá rolar alguma coisa hoje Cherry, eu não to no clima sabe. Não to legal. Nem consigo te beijar. Vou dar pouco de mim.
- Se você me der pelo menos os 48% do primeiro dia, eu já me daria por satisfeita, mas eu te entendo. Não quero que nossa despedida seja assim. Você quer conversar?
- Não Cherry, deixa quieto, coisa minha. Vamos pra casa. Deixa pra amanhã, hoje não tem clima. Você sabe. – Propôs ele com uma cara de quem iria explodir a qualquer momento.
- Tudo bem, deixa pra outro dia então.
Dei um abraço nele, ergui meus pés e deu um selinho nele, então ele me deu um beijo e afundei meu rosto no peito dele colocando minhas mãos no peito dele, fechadas. Descemos a escada e entramos no metrô. Antes de irmos embora, decidimos parar um pouco no piso de cima do metrô, como era de costume. Enquanto descíamos a escada rolante eu comentei com ele:
- Gabriel... é esse o seu nome no meu livro.
- E por que não o meu mesmo?
- Escritores não colocam o nome verdadeiro das pessoas quando elas ainda estão vivas, me disseram que dá azar. - Apesar que um tempo depois preferi deixar os nomes verdadeiros mesmo pra cada um saber quem era quem.
- Ah tá, então coloca Turiel, ou deixa Gabriel mesmo, é meu codinome.
- Tudo bem, eu não ia mudar mesmo.
Ficamos olhando os trilhos do andar de cima, nos abraçamos e nos beijamos novamente, enquanto eu olhava fixamente para os trilhos eu falei:
- Apesar de saber que não vai acontecer nada entre vocês, posso estar enganada. Mas mesmo que aconteça, você vai perceber que ela não é exatamente a pessoa que você procura.
- Pode até ser, mas... sei lá...
- Eu to dizendo o que eu sei que vai acontecer. A única coisa é que eu tenho medo.
- Por que medo?
- Tenho medo de você perceber tarde demais, tenho medo que você sofra mais.
- Eu quero arriscar.
- Não é isso Ariel, você não entende.
Eu sabia que ele iria se decepcionar quando soubesse que ela era uma menina que não gosta de enxergar a verdade, ela prefere a mentira à verdade. Mas não foi isso o que eu quis dizer com “perceber tarde demais”. Eu tinha visto ele com uma moça que não era ela, eu via os dois sorrindo, felizes. E tinha medo que ele tentasse se arriscar ainda mais por um amor que não iria dar em nada, pois se ele estava cego por ela talvez ele não conseguisse enxergar o verdadeiro amor dele. Mas eu preferi deixar ele perceber sozinho, pois eu não poderia interferir na decisão dele. Eu sabia que ele só seria feliz com essa mulher que eu tinha visto, mas eu não conseguia entender o porque eu não era essa moça já que ele era meu anjo. Foi difícil eu conseguir enxergar que ele não era quem eu achava ser.
- Será que dá choque mesmo se alguém cair nos trilhos? – Eu tentei puxar outro assunto.
- Dá sim, e é aquele lá. – ele apontou para o trilho que tinha eletricidade.
- Espera, qual que é? Aquele lá?
- É, esse mesmo, tá vendo?
- Sim, mas então espera um pouco. Quer dizer que aquele dia que eu cai no vão do metrô eu levei choque sem saber?
- Ahn!? – Ele fez uma cara de quem não entendeu.
- Lembra do dia que eu cai no vão do metrô voltando do médico? Então, eu pisei nessa parte do trilho. Então quase que eu morri mesmo.
- É, realmente Cherry. Mas ele não andou, então não conta.
- Claro que conta Ariel, quando o rapaz me tirou de lá o vagão estava começando a andar, tanto que o meu pé bateu na porta com tudo.
- Ah! Já imaginou se você tivesse ficado lá? - Ia ser churrasquinho de Cherry aos pedaços, credo. - Já pensou!? - E... sabe... Você fala tanto que um dia eu vou te odiar e tudo, mas mesmo se você um dia me jogasse nos trilhos, mesmo assim eu continuaria gostando de você, mesmo se eu ficasse sem nenhum movimento. - Pô, ai você ia ficar se comunicando por piscadas: “Mayara, você ainda gosta do Ariel? Dê duas piscadas se for sim e uma se for não!” - E eu daria duas. Mas eu estou falando sério. Queria que você entendesse que não importa o que você faça pra eu odiar você, quanto mais você tentar pior vai ser, entenda. Eu quero e preciso passar pelas mesmas coisas que você. - Eu só não entendo como você se apaixonou tão rápido por mim Cherry, não consigo entender isso! - Não foi por você. A partir do momento em que eu senti o seu cheiro eu sabia que era você. - Se for pelo cheiro eu te dou meu perfume. Eu já disse que eu não sou quem você pensa que eu sou Cherry. Não se iluda. - Não é o perfume que você usa porque eu não sinto cheiro, é o SEU cheiro interior. Eu adoro o seu cheiro, ele é doce. E eu sinto que você é o meu anjo. – Abracei ele com toda a força que eu podia e nos beijamos. - Vamos pra casa Cherry. Está ficando tarde, dá um beijo aqui. - Não quero ir embora, vai você primeiro. - Não Cherry, vai lá. - Não quero, vem cá. Dei um abraço mais apertado ainda sentindo minha garganta ficar seca e meus olhos se encherem de lágrimas, me segurei e quando olhei pra ele de novo eu disse: - É melhor chorar do que guardar pra gente. - É verdade, mas eu não quero chorar. - Não é o que parece. Mas quem sou eu pra falar isso!? Eu estou fazendo a mesma coisa. - Sabe quando fica vindo e voltando? É horrível essa sensação. - Eu sei como é, acredite. Estou passando por isso agora. Ficamos ensaiando mais uma vez pra irmos embora e não resisti, abracei-o de novo, dei um último beijo, abracei-o mais forte ainda, me afundando no peito dele e comecei a chorar, sem conseguir olhar pra ele dei um último abraço apertado sentindo minhas lágrimas caindo em meu rosto e fui embora sem nem mesmo olhar pra trás, não queria que ele me visse chorando. Desci a escada rolante sentido Jabaquara e quando cheguei à plataforma, já com as lágrimas secas em meu rosto o vi do outro lado, sentido Tucuruvi. Fiquei olhando por um tempo pra ele e me lembrei do coração de tecido vermelho que eu queria ter dado à ele a um tempo que eu achei perto de casa jogado no chão da rua. - Eu esqueci de te dar uma coisa. - Falei o mais alto que pude pra ele conseguir ouvir. Virei as costas, subindo as escadas correndo e fui me encontrar com ele do outro lado. Abri a mochila e comecei a procurar, pra minha tristeza eu não consegui achar. Então ele falou: - Não tá ai Cherry, depois você me dá. - Tá aqui sim, eu coloquei aqui, eu vou achar, não é possível. Eu não tirei daqui. Como que some desse jeito? - Cherry, é sério. Depois você me dá, eu vou entrar no próximo vagão. - Tá, eu te dou depois, vai lá. – Fechei a mochila, me levantei como quem já estava indo para o outro lado novamente quando ele disse: - Vem cá, me da um beijo. Ele entrou no vagão e lá se foi. No caminho de volta fiquei ouvindo minhas músicas e pensando em toda aquela situação. Eu sei que seria egoísmo da minha parte, mas por um momento eu queria ter os poderes do esquecimento, queria poder fazer com que ele esquecesse a história do Roberto e da Thaisa. Mas como isso é mais difícil, queria ao menos conseguir fazer com que eu não tivesse falado nada pra ninguém, ficar com esse peso só pra mim. Mas no fundo eu sei que eu fiz a coisa certa. Afinal, não tem coisa pior no mundo do que a mentira, mesmo quando essa mentira não é uma mentira, e sim uma omissão. E como o Ariel mesmo disse depois: - Eu prefiro sofrer com a verdade, a viver uma ilusão na mentira. O Ariel é uma pessoa que você pode contar quando você precisar, se você for amigo dele, ele te ajuda em qualquer situação. Qualquer assunto que você fale com ele, ele vem com suas sábias palavras que te confortam seja qual situação você esteja. Um rapaz cuja beleza não é daquelas que todos caem a seus pés. Ele não é loiro nem tem olhos azuis, ele tem cabelo escuro e olhos cor de mel. A boca dele é carnuda e mesmo os dentes caninos parecerem dentes de vampiro, são perfeitos, e as mordidas são mais gostosas ainda. Ele não é alto nem baixo, não é gordo nem magrinho. Ele é um rapaz com aparência igual aos outros, porém tem um charme diferente, um charme próprio e incomparável. Às vezes me pego pensando se ele realmente é apenas um renegado, ou se ele é mais do que isso. Ele mesmo já me disse uma vez que tem dupla personalidade, eu conheço uma delas, a outra conheço pouco. Porém gosto de ambas.
E como já era de se esperar, pra minha decepção eu me vi deitada na mesma cama, no mesmo quarto, na mesma casa que eu me deitava pra dormir todas as noites, e percebi que eu estava sonhando, lembranças de uma época que não voltará. E então começou mais um dia de trabalho. Levantei da cama e como se fosse um ritual, desci as escadas e acendi um cigarro. Me arrumei, coloquei meu fone de ouvido e fui rumo ao trabalho. Chegando lá eu fiquei distante das pessoas e aos poucos foram percebendo.
- Você tá bem Mayara? – Perguntou Henrique.
- To sim, problemas pessoais, mas vai passar.
- Ah tá! Se você quiser conversar com alguém, você sabe que pode contar comigo né!?
- Obrigada Rick.
- Eu não gosto de te ver tão quieta desse jeito.
Eu dei um sorrisinho e sentei na minha mesa.
Fiquei a tarde inteira pensando em como o mundo era pequeno. Não conversei com ninguém, tirei minhas pausas sozinha, apesar de não fazer muita questão de tirá-las, eu tinha que tirar pelo menos pra respirar um pouco de ar puro. - ou pelo menos o mais parecido com ar puro. - Todos tinham percebido que eu não estava bem. Eu fiquei a tarde inteira pensativa, quieta e sem conversar com ninguém. No caminho pro metrô o Jey me perguntou:
- E ai Cherry? O que houve que você está tristinha hoje? É a história do maluco lá?
- É, eu ainda to tentando entender o que é que aconteceu. Eu to com medo de perder ele de novo.
- Esquece essa história Cherry, você sabe que o que tiver que ser vai ser. Você nem sabe se o cara que você tá saindo vai ficar com ela mesmo.
- Eu sei Jey, eu sei o que vai acontecer, eu vi. Mas não estou preocupada com isso. Eu estou preocupada com o Ariel, ele vai sofrer muito ainda.
- Cherry, esquece essa história. Deixa as coisas acontecerem. Hoje você ouviu o Elias, esse mês eles não querem ver ninguém zerado e você não vendeu nenhum hoje.
- Mas é difícil esquecer assim. Eu sei que eles não vão ficar nem nada, mas ele gosta dela ainda, e depois disso tudo, eu sei que se ela desse uma chance pra ele, pode ser que ele aceitasse.
- Então ele não gosta de você Cherry.
- Gostar ele gosta de mim, mas ele gosta dela primeiro. A gente não namora, mas é difícil ver ele sofrer assim. Mais difícil ainda é saber tudo o que ela vai falar pra ele, ele vai sofrer muito com isso.
- Mas Cherry, você começou a ficar com ele não faz nem duas semanas direito e já tá assim?
- É complicado Jey. Talvez quando eu terminar meu livro você entenda melhor o que eu sinto por ele.
- Eu falo isso porque eu gosto de você Cherry. Você é uma pessoa bacana e que merece ser muito feliz. Não fica pensando muito nisso porque só vai te prejudicar.
- Obrigada Jey, também gosto de você e te acho bacana também. Mas, sei lá... é complicado. Enfim, acho que o tempo é quem dirá o que vai acontecer realmente. Apesar de que eu já sei que não vou ficar com ele, ele não vai ficar com ela também, mas até ele perceber as coisas vai ser muito dolorido pra ele.
Quando eu cheguei em casa, entrei na internet e passei a primeira parte do meu livro pro computador. Naquele momento o que me manteve em pé e me distraia, era pegar meu caderno e começar a escrever.
Alguns dias depois eu consegui finalmente falar quase tudo pra Thaisa. Ela continuava muito abalada, o que eu já esperava. E eu sei que isso ia passar. Eu contei a história de uma forma e ele contou de outra totalmente diferente, então eu disse que ela teria liberdade pra escolher em quem ela acreditaria, é claro que ela preferiu acreditar nele. Eu disse que ela era uma menina bonita, e que não merecia passar por isso. Apesar de que cada um é cada um, se ela prefere ser iludida por ele, a consciência é dela. Ela deve saber muito bem aonde está pisando.
- Talvez você se impediu de ser feliz, justamente por estar com ele Thaisa.
- Você está falando do Ariel?
- Sim, eu sei que você sabe que ele gosta de você.
- Sim, eu sei. Mas eu não fiquei com ele porque eu não quis, não porque eu estava com o Roberto. Eu considero o Ariel como amigo. Tenho um carinho como amiga por ele. Nada mais que isso.
Eu sabia que ela não iria dar uma chance pro Ariel, mas eu me sentia triste pelo Ariel. Me sentia aliviada por ouvir dela essas palavras, mas meu coração ao mesmo tempo estava triste, porque o amor que eu queria ter dele, ele tinha por ela.
Eu esperei tanto pelo dia da minha despedida com o Ariel e quando esse dia chegou eu não conseguia pensar em mais nada. Eu havia comprado um livro pra dar de presente pra ele e antes de ir pro trabalho fui correndo na papelaria comprar uma caixa de presentes. Todos do trabalho já sabiam que eu ia me encontrar com ele, e começaram a dizer:
- A noite vai ser boa hein Cherry. Quero ver a hora que vai chegar amanhã.
- Será que eles vão se prender no quarto de novo? Aproveita hein.
Quando chegou o horário de ir embora, fui correndo me encontrar com ele nas escadas de fora do metrô liberdade. Quando eu cheguei minha alegria se transformou em tristeza. Ele estava parado na escada conversando com ela. Eu sabia o que ela estava falando com ele, e isso me deixou cabisbaixa, pois eu sabia que naquele dia eu não teria nenhuma chance de ter alguma coisa a mais com ele. Eu pensei sinceramente em voltar e esperar ela ir embora, mas eles já tinham me visto, então não tive escolha. Segui reto subindo as escadas como se eu estivesse morrendo. Subi lentamente cada degrau. Então quando eu estava no topo eu não sabia se eu apenas falava oi pros dois, se dava um beijo no rosto de cada um e em quem eu daria primeiro, se eu desse um beijo nele e nela não, iria ficar estranho. Se eu desse um beijo no rosto dele primeiro e depois no dela, provavelmente iria ficar parecendo que eu estava querendo demarcar território. Então decidi cumprimentá-la primeiro e depois ele. Tudo bem que ela praticamente virou o rosto pra mim, mas fingi que nem percebi.
Só foi estranho, porque eu me senti como se eu fosse uma intrusa na frente dos dois, tenho certeza que eles pararam a conversa no momento em que me viram subir as escadas. Provavelmente estavam falando dos dois ainda. Enfim, eu achei que o meu dia fosse começar ali, mas ao contrário de começar, ele acabou ali. Logo depois ela foi embora e ficamos eu e ele sozinhos.
Levantei a mão esquerda onde estava pendurada a caixinha de presentes dentro de uma sacola plástica da papelaria.
- Seu presente!
- O que é isso?
- Eu não sei se você vai gostar, eu tenho um também. Comecei a ler segunda e até agora eu to gostando apesar da leitura ser um pouco complicada. – eu desisti quando cheguei na página 50.
Ele abriu a caixinha, na qual havia na parte de cima da tampa um cachorrinho do lado esquerdo todo peludinho, com pelos lisinhos, o rosto era branquinho só com uma bolinha em volta dos olhos na cor marrom. Do lado direito tinha um gatinho misturado com cinza e branco. E nas laterais da caixa tinha escrito “Eu e você” de um lado e “Juntos para Sempre” do outro lado.
- Você não acha que é muito romance pra mim não?
- Não, porque você é romântico.
- “O Morro dos Ventos Uivantes”! Legal, é a mesma autora do “Crepúsculo”.
- Não, você leu errado. Tá escrito que é “O livro favorito de Bella e Edward da série Crepúsculo”.
A maioria das pessoas sabe que esse livro é um clássico da literatura inglesa, mas era uma nova edição. Tinha uma capa preta com o nome da autora e o nome do livro na parte de cima com letras engraçadas na cor branca e o desenho no meio era uma flor branca muito linda. Em baixo tinha os dizeres escrito em vermelho: “O amor nunca morre”.
- Eu só vou ler porque você me deu, e depois vou guardá-lo com todo o carinho.
- Esse livro é um clássico, se a sua mãe ver que você tá lendo ele...
- Ela vai achar que eu estou apaixonado – Ele me interrompeu.
- Não, ela vai achar que você está louco. Haha. Ela deve conhecer a história do livro, é da época dela.
- Mas a minha mãe não é velha.
- Não importa, qualquer pessoa com no mínimo 30 anos de idade conhece um pouco da história, pelo menos já ouviu falar do livro.
Conversamos por mais um tempo, e ainda não tínhamos nos beijado ainda. Então ele comentou:
- Eu não acho que vá rolar alguma coisa hoje Cherry, eu não to no clima sabe. Não to legal. Nem consigo te beijar. Vou dar pouco de mim.
- Se você me der pelo menos os 48% do primeiro dia, eu já me daria por satisfeita, mas eu te entendo. Não quero que nossa despedida seja assim. Você quer conversar?
- Não Cherry, deixa quieto, coisa minha. Vamos pra casa. Deixa pra amanhã, hoje não tem clima. Você sabe. – Propôs ele com uma cara de quem iria explodir a qualquer momento.
- Tudo bem, deixa pra outro dia então.
Dei um abraço nele, ergui meus pés e deu um selinho nele, então ele me deu um beijo e afundei meu rosto no peito dele colocando minhas mãos no peito dele, fechadas. Descemos a escada e entramos no metrô. Antes de irmos embora, decidimos parar um pouco no piso de cima do metrô, como era de costume. Enquanto descíamos a escada rolante eu comentei com ele:
- Gabriel... é esse o seu nome no meu livro.
- E por que não o meu mesmo?
- Escritores não colocam o nome verdadeiro das pessoas quando elas ainda estão vivas, me disseram que dá azar. - Apesar que um tempo depois preferi deixar os nomes verdadeiros mesmo pra cada um saber quem era quem.
- Ah tá, então coloca Turiel, ou deixa Gabriel mesmo, é meu codinome.
- Tudo bem, eu não ia mudar mesmo.
Ficamos olhando os trilhos do andar de cima, nos abraçamos e nos beijamos novamente, enquanto eu olhava fixamente para os trilhos eu falei:
- Apesar de saber que não vai acontecer nada entre vocês, posso estar enganada. Mas mesmo que aconteça, você vai perceber que ela não é exatamente a pessoa que você procura.
- Pode até ser, mas... sei lá...
- Eu to dizendo o que eu sei que vai acontecer. A única coisa é que eu tenho medo.
- Por que medo?
- Tenho medo de você perceber tarde demais, tenho medo que você sofra mais.
- Eu quero arriscar.
- Não é isso Ariel, você não entende.
Eu sabia que ele iria se decepcionar quando soubesse que ela era uma menina que não gosta de enxergar a verdade, ela prefere a mentira à verdade. Mas não foi isso o que eu quis dizer com “perceber tarde demais”. Eu tinha visto ele com uma moça que não era ela, eu via os dois sorrindo, felizes. E tinha medo que ele tentasse se arriscar ainda mais por um amor que não iria dar em nada, pois se ele estava cego por ela talvez ele não conseguisse enxergar o verdadeiro amor dele. Mas eu preferi deixar ele perceber sozinho, pois eu não poderia interferir na decisão dele. Eu sabia que ele só seria feliz com essa mulher que eu tinha visto, mas eu não conseguia entender o porque eu não era essa moça já que ele era meu anjo. Foi difícil eu conseguir enxergar que ele não era quem eu achava ser.
- Será que dá choque mesmo se alguém cair nos trilhos? – Eu tentei puxar outro assunto.
- Dá sim, e é aquele lá. – ele apontou para o trilho que tinha eletricidade.
- Espera, qual que é? Aquele lá?
- É, esse mesmo, tá vendo?
- Sim, mas então espera um pouco. Quer dizer que aquele dia que eu cai no vão do metrô eu levei choque sem saber?
- Ahn!? – Ele fez uma cara de quem não entendeu.
- Lembra do dia que eu cai no vão do metrô voltando do médico? Então, eu pisei nessa parte do trilho. Então quase que eu morri mesmo.
- É, realmente Cherry. Mas ele não andou, então não conta.
- Claro que conta Ariel, quando o rapaz me tirou de lá o vagão estava começando a andar, tanto que o meu pé bateu na porta com tudo.
- Ah! Já imaginou se você tivesse ficado lá? - Ia ser churrasquinho de Cherry aos pedaços, credo. - Já pensou!? - E... sabe... Você fala tanto que um dia eu vou te odiar e tudo, mas mesmo se você um dia me jogasse nos trilhos, mesmo assim eu continuaria gostando de você, mesmo se eu ficasse sem nenhum movimento. - Pô, ai você ia ficar se comunicando por piscadas: “Mayara, você ainda gosta do Ariel? Dê duas piscadas se for sim e uma se for não!” - E eu daria duas. Mas eu estou falando sério. Queria que você entendesse que não importa o que você faça pra eu odiar você, quanto mais você tentar pior vai ser, entenda. Eu quero e preciso passar pelas mesmas coisas que você. - Eu só não entendo como você se apaixonou tão rápido por mim Cherry, não consigo entender isso! - Não foi por você. A partir do momento em que eu senti o seu cheiro eu sabia que era você. - Se for pelo cheiro eu te dou meu perfume. Eu já disse que eu não sou quem você pensa que eu sou Cherry. Não se iluda. - Não é o perfume que você usa porque eu não sinto cheiro, é o SEU cheiro interior. Eu adoro o seu cheiro, ele é doce. E eu sinto que você é o meu anjo. – Abracei ele com toda a força que eu podia e nos beijamos. - Vamos pra casa Cherry. Está ficando tarde, dá um beijo aqui. - Não quero ir embora, vai você primeiro. - Não Cherry, vai lá. - Não quero, vem cá. Dei um abraço mais apertado ainda sentindo minha garganta ficar seca e meus olhos se encherem de lágrimas, me segurei e quando olhei pra ele de novo eu disse: - É melhor chorar do que guardar pra gente. - É verdade, mas eu não quero chorar. - Não é o que parece. Mas quem sou eu pra falar isso!? Eu estou fazendo a mesma coisa. - Sabe quando fica vindo e voltando? É horrível essa sensação. - Eu sei como é, acredite. Estou passando por isso agora. Ficamos ensaiando mais uma vez pra irmos embora e não resisti, abracei-o de novo, dei um último beijo, abracei-o mais forte ainda, me afundando no peito dele e comecei a chorar, sem conseguir olhar pra ele dei um último abraço apertado sentindo minhas lágrimas caindo em meu rosto e fui embora sem nem mesmo olhar pra trás, não queria que ele me visse chorando. Desci a escada rolante sentido Jabaquara e quando cheguei à plataforma, já com as lágrimas secas em meu rosto o vi do outro lado, sentido Tucuruvi. Fiquei olhando por um tempo pra ele e me lembrei do coração de tecido vermelho que eu queria ter dado à ele a um tempo que eu achei perto de casa jogado no chão da rua. - Eu esqueci de te dar uma coisa. - Falei o mais alto que pude pra ele conseguir ouvir. Virei as costas, subindo as escadas correndo e fui me encontrar com ele do outro lado. Abri a mochila e comecei a procurar, pra minha tristeza eu não consegui achar. Então ele falou: - Não tá ai Cherry, depois você me dá. - Tá aqui sim, eu coloquei aqui, eu vou achar, não é possível. Eu não tirei daqui. Como que some desse jeito? - Cherry, é sério. Depois você me dá, eu vou entrar no próximo vagão. - Tá, eu te dou depois, vai lá. – Fechei a mochila, me levantei como quem já estava indo para o outro lado novamente quando ele disse: - Vem cá, me da um beijo. Ele entrou no vagão e lá se foi. No caminho de volta fiquei ouvindo minhas músicas e pensando em toda aquela situação. Eu sei que seria egoísmo da minha parte, mas por um momento eu queria ter os poderes do esquecimento, queria poder fazer com que ele esquecesse a história do Roberto e da Thaisa. Mas como isso é mais difícil, queria ao menos conseguir fazer com que eu não tivesse falado nada pra ninguém, ficar com esse peso só pra mim. Mas no fundo eu sei que eu fiz a coisa certa. Afinal, não tem coisa pior no mundo do que a mentira, mesmo quando essa mentira não é uma mentira, e sim uma omissão. E como o Ariel mesmo disse depois: - Eu prefiro sofrer com a verdade, a viver uma ilusão na mentira. O Ariel é uma pessoa que você pode contar quando você precisar, se você for amigo dele, ele te ajuda em qualquer situação. Qualquer assunto que você fale com ele, ele vem com suas sábias palavras que te confortam seja qual situação você esteja. Um rapaz cuja beleza não é daquelas que todos caem a seus pés. Ele não é loiro nem tem olhos azuis, ele tem cabelo escuro e olhos cor de mel. A boca dele é carnuda e mesmo os dentes caninos parecerem dentes de vampiro, são perfeitos, e as mordidas são mais gostosas ainda. Ele não é alto nem baixo, não é gordo nem magrinho. Ele é um rapaz com aparência igual aos outros, porém tem um charme diferente, um charme próprio e incomparável. Às vezes me pego pensando se ele realmente é apenas um renegado, ou se ele é mais do que isso. Ele mesmo já me disse uma vez que tem dupla personalidade, eu conheço uma delas, a outra conheço pouco. Porém gosto de ambas.
4° Capítulo
Na manhã seguinte, eu queria algo pra me lembrar dele quando eu não estivesse ao lado dele, então decidi pegar o bracelete que ele usava todos os dias no qual mencionei no segundo capítulo. Nos vestimos e pegamos um ônibus para o metrô. Não entrarei em detalhes, mas pode-se dizer que a noite passada foi um tanto cômica no começo, e no final um pouco mais vamos-se dizer cósmica.
Enquanto era pra eu ter chego ao trabalho 10:00 da manhã, eu só consegui chegar as 11:00, e as piadinhas mais óbvias foram lançadas como se fosse o mais natural do mundo. Ainda mais porque eu abria a boca de sono pelo menos a cada 20 ou 30 minutos.
- A noite deve ter sido muito boa né Cherry? – O Almir fez mais uma afirmativa do que propriamente uma pergunta.
- Foi ótima, nunca me senti tão bem em toda a minha vida, pena que terminou, mas... virão outras.
Antes de qualquer coisa, vale lembrar que Cherry é um apelido carinhoso que eu mesma me dei, o que inclusive deu a origem da idéia de tatuar duas cerejinhas desenhadas e embaixo escrito Cherry, na região da virilha só que mais pro lado.
Chegando em casa liguei pro Bizu e contei a noite maravilhosa que tive, claro que sem muitos detalhes, mas contei como eu me senti.
- Ah Bi, foi como se tivesse sido um sonho. Me senti tão bem com ele.
- Fico feliz por você May. Você merece ser muito feliz.
- Eu estou nas nuvens até agora.
- Eu imagino.
- Bi, eu sinto que é ele, eu senti o cheiro do jardim, o jardim Bizu. O nosso jardim.
- Sério May? Me conta.
- Foi estranho Bi, será que eu encontrei ele finalmente? Só pode ser ele, como eu sentiria o cheiro do jardim se não fosse ele? Além do mais, o Pedro me disse que eu sentiria esse cheiro.
- Pode ser, mas espera, pode não ser.
- Mas Bi... Eu senti o cheiro dele nele.
- Você pode ter imaginado, de tempo ao tempo. Se for você saberá.
- Bi... foi mágico. Foi como se só existíssemos nós dois ali.
- Calma May, Não se precipite. Deixa as coisas acontecerem naturalmente.
- Mas eu não consigo parar de pensar nele Bi, foi o que eu te disse, foi mágico.
E então eu imaginei que tudo havia começado a fazer sentido. Na noite de domingo para segunda eu relembrei tudo o que eu já sabia, mas eu tinha esquecido. Lembrei do que o anjo tinha me falado sobre como ele viria pra esse mundo.
“Ele virá como um renegado! Mas ele não saberá sua origem, você terá que fazer com que ele saiba quem ele já foi um dia. Ele é orgulhoso Lucy e não se esqueça que ele pode não acreditar em você.”
Então me lembrei do dia do metrô quando ele me disse que era um renegado e que ele teria vindo por orgulho e vingança. Tudo se encaixava. O Pedro era meu anjo do amor, e apesar de sempre me dizer que eu o confundiria, eu tinha certeza de que eu saberia quem era meu anjo realmente. Afinal, que motivos o Ariel teria em me contar que já tinha sido um anjo? Comecei a querer saber mais sobre a história do Ariel, tentar ver se ele se lembrava de alguma coisa de antes.
No dia seguinte, como de costume de todos os dias, eu voltava de metro com o Jey, e por algum motivo quando o metrô parou na liberdade eu olhei pro outro lado do metro sentido Tucuruvi, o meu vagão fechou as portas e começou a andar. Então eu o vi em pé do outro lado. E como se o mundo fosse acabar naquele momento e eu não mais tivesse a chance de vê-lo novamente, me despedi do Jey e pulei do metrô logo que ele chegou na estação São Joaquim. Não lembro em quantas pessoas eu esbarrei e atropelei, eu sai correndo sem me importar com quem estava na minha frente, apenas torcendo para que o outro metrô não parasse enquanto eu não estivesse na plataforma. Subi as escadas correndo e tropeçando em todos os degraus, atravessei o metrô pro sentido contrário ao que eu estava, desci as escadas quase que patinando e ao chegar na plataforma, tentei me lembrar em qual parte da plataforma ele estava na liberdade, mas não conseguia me lembrar. O aviso de fechar as portas já tinha tocado e entrei na primeira porta que eu vi. Estava eufórica e sem fôlego, ficava dando soquinhos na porta imaginando que fosse adiantar alguma coisa. Eu queria que chegasse logo na liberdade. O meu desembarque não foi tão diferente quanto o primeiro, parecia cena de filme em câmera lenta. Dei todas as minhas forças pra chegar a tempo de olhar pra ele e tentar dizer: - Ei! Eu estou aqui, me espera! – Mas eu não tinha voz e a plataforma estava muito cheia. Ele deu o primeiro passo em direção ao vagão, eu devia estar a uns 15 metros de distância dele, mas ele não me enxergava. Como se alguém tivesse o avisado da minha presença, ele recuou e logo depois ele levantou a cabeça e olhou pro lado, nessa hora eu já estava quase do lado dele, totalmente sem fôlego e ao chegar mais perto e perceber que ele havia me visto, respirei fundo e tentei falar com ele.
- Você... tem... noção... que eu estava... no outro vagão... te vi aqui... não deu tempo de descer... parei na São Joaquim.. dei a volta... Peguei o sentido contrário... Me esmaguei no vagão lotado... só pra tentar te ver!??
- Nossa, não acredito que você fez isso Cherry.
- Pois é, e eu estou... sem... fôlego...
Então nós nos abraçamos por um momento e nos beijamos. O Vanderlei estava com ele, mas logo ele foi embora.
- Como de costume, quando eu sei que uma pessoa é especial e eu gosto dela, eu faço uma troca de objetos pessoais. Eu peguei o seu bracelete e estou lhe dando meu crucifixo, eu tinha ele como meu amuleto e agora ele é seu. – tirei o crucifixo do meu pescoço e fiz como se eu fosse colocar no pescoço dele.
- Fique a vontade Cherry! – Ele se curvou para que eu pudesse colocar a corrente pendurada em seu pescoço.
- Uma pequena lembrança pra quando você sentir saudades minhas.
- Obrigado, muito bonito.
- Não há de que. Era o mínimo que eu podia fazer.
Ficamos conversando sobre várias coisas e algo do que ele disse ao qual não me recordo, me fez dizer que eu estava apaixonada por ele.
- Essa aliança é uma aliança de compromisso. Eu sou só sua.
- Como assim?
- Eu estou apaixonada por você e decidi ser fiel à você.
- E eu preciso usar também?
- Não, só se você quiser.
- Cherry, eu já te expliquei né!?
- O que?
- Eu não vou me apaixonar de novo, pelo menos eu não pretendo. Já passei pelo que você está passando, joguei todas as minhas fichas em uma pessoa e não deu certo. Sem contar que eu não sou quem você está procurando, e você sabe disso. Não quero te decepcionar.
- Você não vai me decepcionar. E quem disse que você não vai se apaixonar por mim? Eu te ensino.
- Mas Cherry, o que te garante que isso vai acontecer um dia?
- O tempo me garante.
- O tempo... o tempo é muito vago.
- Eu pensava assim, até te encontrar. Um dia você vai entender o porquê eu estou apostando tão caro em você.
Conversamos mais um pouco e depois ele me acompanhou até a plataforma e sentou no banco. Entrei no vagão, me virei e disse: - Você vai entender, é só esperar. – A porta se fechou e eu fiquei olhando pra ele sentado no banco. Chegando em casa, liguei o computador e contei a minha experiência cheia de adrenalina ao Bizu e ele como sempre me disse:
- Ele vai entender no momento certo, ele só não quer enxergar. Aliás, isso se ele for o seu anjo né May.
- Mas eu tenho medo por ele Bi. A história do Pedro pode não ser real, mas quando eu me dei conta que eu amava ele, ele foi embora.
- Você só viu o futuro May. Pode ser que você tenha visto o que vai acontecer mais pra frente, mas pode não ser com o Ariel, pense e não se iluda. Pode não ser ele, pode não ter chego a hora de você conseguir entender as coisas e você pensar que ele é o seu anjo só vai fazer você confundir ainda mais as coisas.
- Mas e se for ele? E se quando ele descobrir quem ele é e o que ele sente por mim já for tarde? E se eu morrer antes Bi?
- Mayara, para com isso, você não vai morrer da noite pro dia, pode parar.
- Mesmo assim eu tenho medo.
- Então não tenha. Nada vai acontecer com vocês May. Espera.
No dia seguinte eu e o Ariel iríamos sair novamente, mas dessa vez iríamos para um lugar que tivesse vaga e que não fosse tão caro. Encontramos um hotel perto do metro liberdade e ficamos nele mesmo. Um quarto arrumadinho, com TV, ventilador, rádio, banheiro, chuveiro quentinho, ou seja, um apartamento bom. E como se fosse um carma que carregamos, nós sempre tivemos coisas inéditas pra contar das nossas saídas.
- Não esquecemos nada, podemos ir então, é só abrir a porta.
– Eu disse ao mesmo tempo em que colocava a mochila nas costas e olhava em volta pra ter certeza de que não esquecemos nada.
- Ergh! Estamos presos Cherry!
- Como? O que aconteceu? Não abre?
- Não, é que. A chave quebrou lá dentro.
- Espera, como é que é? Como você conseguiu? – Comecei a rir sem ofendê-lo.
- Não tenho culpa que essa chave é vagabunda, eu só tentei abrir e quebrou.
- Haha! Só você mesmo Ariel pra deixar a gente preso no hotel na hora de ir embora.
- E o que eu posso fazer? – Ele começou a rir também. – Não foi minha culpa. E agora?
Fui na janela ver se tinha como pular pra algum lugar, mas todas as janelas vizinhas tinham grades, e as casas eram alta demais pra tentar pular pelo telhado.
- Bom, tem o interfone. O único jeito de sair daqui é rezando pra que tenha uma chave reserva.
Ele interfonou e explicou a situação pro atendente, o qual respondeu que a camareira iria tentar achar a outra chave e abrir a porta. Enquanto isso, ficamos sentados na cama olhando um pro outro e rindo. A camareira veio e abriu a porta, então fomos embora. Acredito que já tenha dado pra perceber, sou uma garota que gosta de lembranças, então guardei o miolo da chave para que futuramente eu fizesse um furinho nela e usasse como colar.
Eu me sentia feliz ao lado dele, me sentia segura, protegida. Perto dele nada me abalava. Tudo era perfeito e eu tinha certeza que nada iria abalar a nossa relação. Eu estava errada.
A Isa tinha voltado a trabalhar na empresa. Então eu marquei de encontrar com ela na hora do almoço na porta, pra deixar as fofocas em dia. Cheguei antes e fiquei esperando ela. Nesse dia me perdi de mim mesma, perdi a noção do tempo e espaço. Uma das únicas coisas que ainda me mantinha em pé, era a garra que eu tinha pra fazer tudo ser diferente.
Eu estava parada na frente da empresa, quando eu o vi sair lá de dentro. Fiquei nervosa porque de todos os lugares que nos esbarramos, aquele era o último lugar que eu imaginaria encontrá-lo. E devido às circunstâncias, nunca poderia imaginar quem era ele e o que o tinha levado até lá. A Isa desceu logo depois e eu contei pra ela a história.
- Isa. Lembra aquela história que eu contei, que eu traí meu marido!?
- Lembro, claro. Por quê?
- Ele estava aqui, o cara que eu traí meu marido!
- O que? Mas ele te viu? O que ele tava fazendo aqui? Vocês conversaram?
- Era ele, ele me viu quando saiu. Ele tava com o pai dele acho, não sei. Ele não é doido de vim falar comigo.
- Nossa, que mundo pequeno cara!
- Com certeza.
Eu só não imaginava que era tão pequeno. Enquanto eu ia falando, fomos para a padaria lanchar e quando fomos pagar a conta, eu olhei pro lado e o vi, no balcão dos salgados.
- Isa, é ele. Ali, o loirinho.
- Você tá falando do Roberto?
- É, você conhece ele?
- Má, ele é o namorado da Thaisa.
- O QUE? Quem? Não, dela não, todas menos ela.
- Pois é, mundo pequeno mesmo.
- Será que ele traiu ela comigo? Ela já ficou grávida dele?
- Cara, eu não faço a menor idéia.
- Você tem noção do que isso significa? O Ariel era apaixonado pela Thaisa, que por sua vez é namorada do Roberto e por isso não deu uma chance pro Ariel. E esse Roberto é o mesmo que eu traí meu marido! Que raiva desse cretino. Até aqui ele consegue me prejudicar. Eu já tinha esquecido essa história, já tinha passado uma borracha.
- Má, calma. Fica tranqüila que isso passa. Eu tenho que ir, já deu meu horário, qualquer coisa você me liga.
Eu esperei mais um pouco na porta da empresa, não tinha forças pra ir até o metrô naquela hora. E então a Thaisa parou um pouco mais à frente e ficou por ali. Eu como estava com a curiosidade me matando, tive que ir até ela.
- Posso te fazer uma pergunta Thaisa?
- Pode, qual?
- Quanto tempo faz que você namora com o Roberto?
- Faz um tempo já, por quê!? Vocês se conhecem?
- Eu trabalhei com ele em outra empresa.
- Na atento?
- Não, foi lá em São Judas.
- Ah, sei! Bom, eu tenho que subir que minha pausa já estourou.
- Vai lá, até.
Na hora eu peguei o celular e liguei pro Ariel.
- Ariel, eu conheço o namorado da Thaisa.
- Ahn? Como assim?
- Eu te contei que quando eu ainda era casada eu tive um lance com um cara?
- Não lembro, mas fala!
- Era o Roberto, o namorado da Thaisa. A mina que você sempre gostou. O cretino traiu ela comigo.
Expliquei a história pra ele e a noite ele contou pra Thaisa. Como eu sempre digo, a verdade sempre aparece por mais que você esconda atrás de uma mentira, nenhuma mentira é tão bem contada que faça a verdade nunca ser dita. Mesmo sabendo que eu estava colocando tudo a perder, quando nos falamos de novo contei toda a história de quem eu achava que ele era pra mim.
- Eu não ia contar pra você que o que tinha acontecido comigo no passado foi com o Roberto, porque eu sabia que poderia te perder de novo, mas eu não consigo esconder nada de você Ariel.
- Olha Cherry, a Thaisa tinha me contado que ele quase engravidou uma menina e eu disse que eu ia descobrir essa história pra ela.
- Só que você não imaginava que a história iria chegar até você desse jeito, e por mim.
- Realmente. E eu admiro a sua postura Cherry, admiro a sua atitude. Eu vejo que eu posso contar com você pra muitas coisas.
- Eu sempre vou te ajudar Ariel, eu já contei tudo mesmo me arriscando. Eu gosto de você e querp ver você feliz, mesmo que a gente não continue juntos vou continuar sendo sua amiga.
- Deixa as coisas acontecerem Cherry, quem sabe o que vai acontecer depois disso tudo!? A gente não sabe.
- Eu sei Ariel, eu sei o que vai acontecer, e justamente por saber eu quero te pedir uma última coisa. Posso? - Eu sabia que a gente não ia sair por mais tanto tempo, eu sentia que nosso lance estava chegando ao fim.
- Se eu puder fazer, claro.
- Você pode... Eu só queria me despedir de você uma última vez, pode ser?
- Cherry, é claro... A gente vai se ver de novo, mas não quer dizer que seja a última vez.
- Pode ser que não, mas mesmo assim eu quero.
- Tudo bem, então teremos nossa despedida.
- Fala pra Thaisa que se ela quiser eu falo com ela, explico tudo e mais um pouco. Quando ela quiser, eu estarei aqui pra conversar com ela.
- Tudo bem, ela quer falar com você também, mas deixa a poeira abaixar, ela ainda tá muito abalada com tudo isso.
- Claro, eu espero.
Sei que nunca fui santa, já fiz muitas coisas erradas, mas eu também não sou nenhuma covarde, hipócrita, sínica entre outros. Eu traí meu marido sim, mesmo que tenha acontecido só 5 vezes e nosso casamento já estava acabado, mesmo assim eu sei que de uma certa forma eu traí meu marido. Sei que não serve como desculpa dizer que nosso casamento já estava acabado, nunca iria dar certo porque ele não era meu anjo. Porém as pessoas podem pensar que eu sou uma garota que sai com o primeiro que passa na minha frente e eu não sou essa garota. Depois que eu caí em mim que eu estava praticamente com os dias contados pra partir, comecei a querer aproveitar mais a vida e comecei a enxergar que a felicidade só depende de nós mesmos. Desde pequena o Pedro me diz que no dia 13 de setembro de 2012 alguma coisa iria acontecer comigo, uma mudança que faria bem pra mim mas que eu iria perder muita coisa também. Eu sempre achei que eu fosse morrer na verdade, um tempo depois cheguei a pensar que seria apenas um portal que eu iria abrir e pra ser sincera, hoje eu só espero esse dia chegar porém tenho medo. Não sei até que ponto um humano acredita em nós, anjos e demônios. Eu quero mostrar que nós existimos, e quando estamos na forma humana, também erramos, choramos, nos machucamos, também amamos. Um anjo tem como missão levar amor aos humanos, eu tentei de todas as formas cumprir o meu papel aqui como uma humana. E pra ser sincera, tudo o que fiz foi por amor. Fiz tudo pelo amor que eu morri. De certa forma, não viverei o suficiente para compartilhar o final com vocês todos mas não é por isso que deixarei de contá-lo. Pode ser que o final mude com o tempo, assim como nossos destinos e escolhas mudam a cada momento, mas não sou eu quem dirá a forma como ele acabará. Anjos e Demônios sempre irão existir. Você sabe se a pessoa que está ao seu lado não é um!? Você sabe se você não é um de nós!? Mesmo eu sabendo o dia da minha provável partida, não deixarei de cumprir minhas promessas. E sei que no final, será um final feliz, pois eu já o vi.
Não foi pelas coisas terem acontecido da maneira que aconteceu que eu e o Ariel deixamos de nos falar. Até o momento eu não sabia pra qual rumo, nossa relação iria. Eu sabia que não iríamos ficar juntos, mas eu não queria aceitar a verdade. O que eu sabia é que eu tinha que achar meu anjo para que tudo fosse esclarecido, e eu acreditava que o Ariel fosse ele. Mas hoje eu percebo quem ele foi. Ele também foi meu anjo, claro, e por isso mesmo senti o cheiro do jardim nele. Mas ele não era anjo do qual eu vim procurar, ele foi o anjo que me fez enxergar que as coisas nem sempre são como queremos, e que muitas vezes podemos sim nos enganar mesmo tendo certeza. O Ariel tinha o dom do pensamento, enxergar os humanos mais profundo e conseguir entrar dentro da mente deles, com isso ele conseguia dominá-los de uma certa forma, mas ele não praticava isso para o mal ou para prejudicar alguém.
Enquanto era pra eu ter chego ao trabalho 10:00 da manhã, eu só consegui chegar as 11:00, e as piadinhas mais óbvias foram lançadas como se fosse o mais natural do mundo. Ainda mais porque eu abria a boca de sono pelo menos a cada 20 ou 30 minutos.
- A noite deve ter sido muito boa né Cherry? – O Almir fez mais uma afirmativa do que propriamente uma pergunta.
- Foi ótima, nunca me senti tão bem em toda a minha vida, pena que terminou, mas... virão outras.
Antes de qualquer coisa, vale lembrar que Cherry é um apelido carinhoso que eu mesma me dei, o que inclusive deu a origem da idéia de tatuar duas cerejinhas desenhadas e embaixo escrito Cherry, na região da virilha só que mais pro lado.
Chegando em casa liguei pro Bizu e contei a noite maravilhosa que tive, claro que sem muitos detalhes, mas contei como eu me senti.
- Ah Bi, foi como se tivesse sido um sonho. Me senti tão bem com ele.
- Fico feliz por você May. Você merece ser muito feliz.
- Eu estou nas nuvens até agora.
- Eu imagino.
- Bi, eu sinto que é ele, eu senti o cheiro do jardim, o jardim Bizu. O nosso jardim.
- Sério May? Me conta.
- Foi estranho Bi, será que eu encontrei ele finalmente? Só pode ser ele, como eu sentiria o cheiro do jardim se não fosse ele? Além do mais, o Pedro me disse que eu sentiria esse cheiro.
- Pode ser, mas espera, pode não ser.
- Mas Bi... Eu senti o cheiro dele nele.
- Você pode ter imaginado, de tempo ao tempo. Se for você saberá.
- Bi... foi mágico. Foi como se só existíssemos nós dois ali.
- Calma May, Não se precipite. Deixa as coisas acontecerem naturalmente.
- Mas eu não consigo parar de pensar nele Bi, foi o que eu te disse, foi mágico.
E então eu imaginei que tudo havia começado a fazer sentido. Na noite de domingo para segunda eu relembrei tudo o que eu já sabia, mas eu tinha esquecido. Lembrei do que o anjo tinha me falado sobre como ele viria pra esse mundo.
“Ele virá como um renegado! Mas ele não saberá sua origem, você terá que fazer com que ele saiba quem ele já foi um dia. Ele é orgulhoso Lucy e não se esqueça que ele pode não acreditar em você.”
Então me lembrei do dia do metrô quando ele me disse que era um renegado e que ele teria vindo por orgulho e vingança. Tudo se encaixava. O Pedro era meu anjo do amor, e apesar de sempre me dizer que eu o confundiria, eu tinha certeza de que eu saberia quem era meu anjo realmente. Afinal, que motivos o Ariel teria em me contar que já tinha sido um anjo? Comecei a querer saber mais sobre a história do Ariel, tentar ver se ele se lembrava de alguma coisa de antes.
No dia seguinte, como de costume de todos os dias, eu voltava de metro com o Jey, e por algum motivo quando o metrô parou na liberdade eu olhei pro outro lado do metro sentido Tucuruvi, o meu vagão fechou as portas e começou a andar. Então eu o vi em pé do outro lado. E como se o mundo fosse acabar naquele momento e eu não mais tivesse a chance de vê-lo novamente, me despedi do Jey e pulei do metrô logo que ele chegou na estação São Joaquim. Não lembro em quantas pessoas eu esbarrei e atropelei, eu sai correndo sem me importar com quem estava na minha frente, apenas torcendo para que o outro metrô não parasse enquanto eu não estivesse na plataforma. Subi as escadas correndo e tropeçando em todos os degraus, atravessei o metrô pro sentido contrário ao que eu estava, desci as escadas quase que patinando e ao chegar na plataforma, tentei me lembrar em qual parte da plataforma ele estava na liberdade, mas não conseguia me lembrar. O aviso de fechar as portas já tinha tocado e entrei na primeira porta que eu vi. Estava eufórica e sem fôlego, ficava dando soquinhos na porta imaginando que fosse adiantar alguma coisa. Eu queria que chegasse logo na liberdade. O meu desembarque não foi tão diferente quanto o primeiro, parecia cena de filme em câmera lenta. Dei todas as minhas forças pra chegar a tempo de olhar pra ele e tentar dizer: - Ei! Eu estou aqui, me espera! – Mas eu não tinha voz e a plataforma estava muito cheia. Ele deu o primeiro passo em direção ao vagão, eu devia estar a uns 15 metros de distância dele, mas ele não me enxergava. Como se alguém tivesse o avisado da minha presença, ele recuou e logo depois ele levantou a cabeça e olhou pro lado, nessa hora eu já estava quase do lado dele, totalmente sem fôlego e ao chegar mais perto e perceber que ele havia me visto, respirei fundo e tentei falar com ele.
- Você... tem... noção... que eu estava... no outro vagão... te vi aqui... não deu tempo de descer... parei na São Joaquim.. dei a volta... Peguei o sentido contrário... Me esmaguei no vagão lotado... só pra tentar te ver!??
- Nossa, não acredito que você fez isso Cherry.
- Pois é, e eu estou... sem... fôlego...
Então nós nos abraçamos por um momento e nos beijamos. O Vanderlei estava com ele, mas logo ele foi embora.
- Como de costume, quando eu sei que uma pessoa é especial e eu gosto dela, eu faço uma troca de objetos pessoais. Eu peguei o seu bracelete e estou lhe dando meu crucifixo, eu tinha ele como meu amuleto e agora ele é seu. – tirei o crucifixo do meu pescoço e fiz como se eu fosse colocar no pescoço dele.
- Fique a vontade Cherry! – Ele se curvou para que eu pudesse colocar a corrente pendurada em seu pescoço.
- Uma pequena lembrança pra quando você sentir saudades minhas.
- Obrigado, muito bonito.
- Não há de que. Era o mínimo que eu podia fazer.
Ficamos conversando sobre várias coisas e algo do que ele disse ao qual não me recordo, me fez dizer que eu estava apaixonada por ele.
- Essa aliança é uma aliança de compromisso. Eu sou só sua.
- Como assim?
- Eu estou apaixonada por você e decidi ser fiel à você.
- E eu preciso usar também?
- Não, só se você quiser.
- Cherry, eu já te expliquei né!?
- O que?
- Eu não vou me apaixonar de novo, pelo menos eu não pretendo. Já passei pelo que você está passando, joguei todas as minhas fichas em uma pessoa e não deu certo. Sem contar que eu não sou quem você está procurando, e você sabe disso. Não quero te decepcionar.
- Você não vai me decepcionar. E quem disse que você não vai se apaixonar por mim? Eu te ensino.
- Mas Cherry, o que te garante que isso vai acontecer um dia?
- O tempo me garante.
- O tempo... o tempo é muito vago.
- Eu pensava assim, até te encontrar. Um dia você vai entender o porquê eu estou apostando tão caro em você.
Conversamos mais um pouco e depois ele me acompanhou até a plataforma e sentou no banco. Entrei no vagão, me virei e disse: - Você vai entender, é só esperar. – A porta se fechou e eu fiquei olhando pra ele sentado no banco. Chegando em casa, liguei o computador e contei a minha experiência cheia de adrenalina ao Bizu e ele como sempre me disse:
- Ele vai entender no momento certo, ele só não quer enxergar. Aliás, isso se ele for o seu anjo né May.
- Mas eu tenho medo por ele Bi. A história do Pedro pode não ser real, mas quando eu me dei conta que eu amava ele, ele foi embora.
- Você só viu o futuro May. Pode ser que você tenha visto o que vai acontecer mais pra frente, mas pode não ser com o Ariel, pense e não se iluda. Pode não ser ele, pode não ter chego a hora de você conseguir entender as coisas e você pensar que ele é o seu anjo só vai fazer você confundir ainda mais as coisas.
- Mas e se for ele? E se quando ele descobrir quem ele é e o que ele sente por mim já for tarde? E se eu morrer antes Bi?
- Mayara, para com isso, você não vai morrer da noite pro dia, pode parar.
- Mesmo assim eu tenho medo.
- Então não tenha. Nada vai acontecer com vocês May. Espera.
No dia seguinte eu e o Ariel iríamos sair novamente, mas dessa vez iríamos para um lugar que tivesse vaga e que não fosse tão caro. Encontramos um hotel perto do metro liberdade e ficamos nele mesmo. Um quarto arrumadinho, com TV, ventilador, rádio, banheiro, chuveiro quentinho, ou seja, um apartamento bom. E como se fosse um carma que carregamos, nós sempre tivemos coisas inéditas pra contar das nossas saídas.
- Não esquecemos nada, podemos ir então, é só abrir a porta.
– Eu disse ao mesmo tempo em que colocava a mochila nas costas e olhava em volta pra ter certeza de que não esquecemos nada.
- Ergh! Estamos presos Cherry!
- Como? O que aconteceu? Não abre?
- Não, é que. A chave quebrou lá dentro.
- Espera, como é que é? Como você conseguiu? – Comecei a rir sem ofendê-lo.
- Não tenho culpa que essa chave é vagabunda, eu só tentei abrir e quebrou.
- Haha! Só você mesmo Ariel pra deixar a gente preso no hotel na hora de ir embora.
- E o que eu posso fazer? – Ele começou a rir também. – Não foi minha culpa. E agora?
Fui na janela ver se tinha como pular pra algum lugar, mas todas as janelas vizinhas tinham grades, e as casas eram alta demais pra tentar pular pelo telhado.
- Bom, tem o interfone. O único jeito de sair daqui é rezando pra que tenha uma chave reserva.
Ele interfonou e explicou a situação pro atendente, o qual respondeu que a camareira iria tentar achar a outra chave e abrir a porta. Enquanto isso, ficamos sentados na cama olhando um pro outro e rindo. A camareira veio e abriu a porta, então fomos embora. Acredito que já tenha dado pra perceber, sou uma garota que gosta de lembranças, então guardei o miolo da chave para que futuramente eu fizesse um furinho nela e usasse como colar.
Eu me sentia feliz ao lado dele, me sentia segura, protegida. Perto dele nada me abalava. Tudo era perfeito e eu tinha certeza que nada iria abalar a nossa relação. Eu estava errada.
A Isa tinha voltado a trabalhar na empresa. Então eu marquei de encontrar com ela na hora do almoço na porta, pra deixar as fofocas em dia. Cheguei antes e fiquei esperando ela. Nesse dia me perdi de mim mesma, perdi a noção do tempo e espaço. Uma das únicas coisas que ainda me mantinha em pé, era a garra que eu tinha pra fazer tudo ser diferente.
Eu estava parada na frente da empresa, quando eu o vi sair lá de dentro. Fiquei nervosa porque de todos os lugares que nos esbarramos, aquele era o último lugar que eu imaginaria encontrá-lo. E devido às circunstâncias, nunca poderia imaginar quem era ele e o que o tinha levado até lá. A Isa desceu logo depois e eu contei pra ela a história.
- Isa. Lembra aquela história que eu contei, que eu traí meu marido!?
- Lembro, claro. Por quê?
- Ele estava aqui, o cara que eu traí meu marido!
- O que? Mas ele te viu? O que ele tava fazendo aqui? Vocês conversaram?
- Era ele, ele me viu quando saiu. Ele tava com o pai dele acho, não sei. Ele não é doido de vim falar comigo.
- Nossa, que mundo pequeno cara!
- Com certeza.
Eu só não imaginava que era tão pequeno. Enquanto eu ia falando, fomos para a padaria lanchar e quando fomos pagar a conta, eu olhei pro lado e o vi, no balcão dos salgados.
- Isa, é ele. Ali, o loirinho.
- Você tá falando do Roberto?
- É, você conhece ele?
- Má, ele é o namorado da Thaisa.
- O QUE? Quem? Não, dela não, todas menos ela.
- Pois é, mundo pequeno mesmo.
- Será que ele traiu ela comigo? Ela já ficou grávida dele?
- Cara, eu não faço a menor idéia.
- Você tem noção do que isso significa? O Ariel era apaixonado pela Thaisa, que por sua vez é namorada do Roberto e por isso não deu uma chance pro Ariel. E esse Roberto é o mesmo que eu traí meu marido! Que raiva desse cretino. Até aqui ele consegue me prejudicar. Eu já tinha esquecido essa história, já tinha passado uma borracha.
- Má, calma. Fica tranqüila que isso passa. Eu tenho que ir, já deu meu horário, qualquer coisa você me liga.
Eu esperei mais um pouco na porta da empresa, não tinha forças pra ir até o metrô naquela hora. E então a Thaisa parou um pouco mais à frente e ficou por ali. Eu como estava com a curiosidade me matando, tive que ir até ela.
- Posso te fazer uma pergunta Thaisa?
- Pode, qual?
- Quanto tempo faz que você namora com o Roberto?
- Faz um tempo já, por quê!? Vocês se conhecem?
- Eu trabalhei com ele em outra empresa.
- Na atento?
- Não, foi lá em São Judas.
- Ah, sei! Bom, eu tenho que subir que minha pausa já estourou.
- Vai lá, até.
Na hora eu peguei o celular e liguei pro Ariel.
- Ariel, eu conheço o namorado da Thaisa.
- Ahn? Como assim?
- Eu te contei que quando eu ainda era casada eu tive um lance com um cara?
- Não lembro, mas fala!
- Era o Roberto, o namorado da Thaisa. A mina que você sempre gostou. O cretino traiu ela comigo.
Expliquei a história pra ele e a noite ele contou pra Thaisa. Como eu sempre digo, a verdade sempre aparece por mais que você esconda atrás de uma mentira, nenhuma mentira é tão bem contada que faça a verdade nunca ser dita. Mesmo sabendo que eu estava colocando tudo a perder, quando nos falamos de novo contei toda a história de quem eu achava que ele era pra mim.
- Eu não ia contar pra você que o que tinha acontecido comigo no passado foi com o Roberto, porque eu sabia que poderia te perder de novo, mas eu não consigo esconder nada de você Ariel.
- Olha Cherry, a Thaisa tinha me contado que ele quase engravidou uma menina e eu disse que eu ia descobrir essa história pra ela.
- Só que você não imaginava que a história iria chegar até você desse jeito, e por mim.
- Realmente. E eu admiro a sua postura Cherry, admiro a sua atitude. Eu vejo que eu posso contar com você pra muitas coisas.
- Eu sempre vou te ajudar Ariel, eu já contei tudo mesmo me arriscando. Eu gosto de você e querp ver você feliz, mesmo que a gente não continue juntos vou continuar sendo sua amiga.
- Deixa as coisas acontecerem Cherry, quem sabe o que vai acontecer depois disso tudo!? A gente não sabe.
- Eu sei Ariel, eu sei o que vai acontecer, e justamente por saber eu quero te pedir uma última coisa. Posso? - Eu sabia que a gente não ia sair por mais tanto tempo, eu sentia que nosso lance estava chegando ao fim.
- Se eu puder fazer, claro.
- Você pode... Eu só queria me despedir de você uma última vez, pode ser?
- Cherry, é claro... A gente vai se ver de novo, mas não quer dizer que seja a última vez.
- Pode ser que não, mas mesmo assim eu quero.
- Tudo bem, então teremos nossa despedida.
- Fala pra Thaisa que se ela quiser eu falo com ela, explico tudo e mais um pouco. Quando ela quiser, eu estarei aqui pra conversar com ela.
- Tudo bem, ela quer falar com você também, mas deixa a poeira abaixar, ela ainda tá muito abalada com tudo isso.
- Claro, eu espero.
Sei que nunca fui santa, já fiz muitas coisas erradas, mas eu também não sou nenhuma covarde, hipócrita, sínica entre outros. Eu traí meu marido sim, mesmo que tenha acontecido só 5 vezes e nosso casamento já estava acabado, mesmo assim eu sei que de uma certa forma eu traí meu marido. Sei que não serve como desculpa dizer que nosso casamento já estava acabado, nunca iria dar certo porque ele não era meu anjo. Porém as pessoas podem pensar que eu sou uma garota que sai com o primeiro que passa na minha frente e eu não sou essa garota. Depois que eu caí em mim que eu estava praticamente com os dias contados pra partir, comecei a querer aproveitar mais a vida e comecei a enxergar que a felicidade só depende de nós mesmos. Desde pequena o Pedro me diz que no dia 13 de setembro de 2012 alguma coisa iria acontecer comigo, uma mudança que faria bem pra mim mas que eu iria perder muita coisa também. Eu sempre achei que eu fosse morrer na verdade, um tempo depois cheguei a pensar que seria apenas um portal que eu iria abrir e pra ser sincera, hoje eu só espero esse dia chegar porém tenho medo. Não sei até que ponto um humano acredita em nós, anjos e demônios. Eu quero mostrar que nós existimos, e quando estamos na forma humana, também erramos, choramos, nos machucamos, também amamos. Um anjo tem como missão levar amor aos humanos, eu tentei de todas as formas cumprir o meu papel aqui como uma humana. E pra ser sincera, tudo o que fiz foi por amor. Fiz tudo pelo amor que eu morri. De certa forma, não viverei o suficiente para compartilhar o final com vocês todos mas não é por isso que deixarei de contá-lo. Pode ser que o final mude com o tempo, assim como nossos destinos e escolhas mudam a cada momento, mas não sou eu quem dirá a forma como ele acabará. Anjos e Demônios sempre irão existir. Você sabe se a pessoa que está ao seu lado não é um!? Você sabe se você não é um de nós!? Mesmo eu sabendo o dia da minha provável partida, não deixarei de cumprir minhas promessas. E sei que no final, será um final feliz, pois eu já o vi.
Não foi pelas coisas terem acontecido da maneira que aconteceu que eu e o Ariel deixamos de nos falar. Até o momento eu não sabia pra qual rumo, nossa relação iria. Eu sabia que não iríamos ficar juntos, mas eu não queria aceitar a verdade. O que eu sabia é que eu tinha que achar meu anjo para que tudo fosse esclarecido, e eu acreditava que o Ariel fosse ele. Mas hoje eu percebo quem ele foi. Ele também foi meu anjo, claro, e por isso mesmo senti o cheiro do jardim nele. Mas ele não era anjo do qual eu vim procurar, ele foi o anjo que me fez enxergar que as coisas nem sempre são como queremos, e que muitas vezes podemos sim nos enganar mesmo tendo certeza. O Ariel tinha o dom do pensamento, enxergar os humanos mais profundo e conseguir entrar dentro da mente deles, com isso ele conseguia dominá-los de uma certa forma, mas ele não praticava isso para o mal ou para prejudicar alguém.
3º Capítulo
Eu me recordo do seu olhar, do movimento que fazia com a boca dando sinais de que queria algo mais, porém ainda não tinha coragem de dizer. Eu por um momento me perguntei: “Mas o que é isso? Eu também quero! Por que!?” Eu nem o conhecia direito, Ariel era o nome dele e nada mais eu sabia do rapaz que trabalhava na mesma empresa que eu. Acho que teve uma única vez que conseguimos nos falar, mesmo que por alguns segundos. Como eu tinha acabado de cortar o cabelo bem curtinho, fui ao trabalho com uma peruca da minha tia, meus olhos azuis se destacavam com a cor marrom da peruca e então lembro que ele me disse entre nossa troca de turno:
- Gostei da peruca!
- Obrigada.
- De nada! Mas por que colocou?
- Então você não viu ainda? – ele fez como quem não entendeu – Estou com os cabos curtos. Tive de cortá-los, começaram a cair.
- Ah! Entendi. Mas eles crescem. Não se preocupe.
E esse foi o único dia do qual eu me lembro que tivemos uma conversa entre duas pessoas normais, sem que soubéssemos de nossos passados semelhantes. Haviamos nos encontrado na padaria perto da empresa que trabalhávamos, porém eu havia sido demitida no dia anterior e fui apenas comemorar meu novo emprego que acabara de conseguir. Estávamos com nossos amigos, eu estava saindo com o DImas na época, mas como ninguém sabia até então não quis dar a entender que estávamos juntos. O que me fez me arrepender depois, pois ele me beijou na frente do Ariel depois de eu ter falado que não tinhamos ficado e nem estaríamos ficando. O Ariel me fitava e eu me sentia desejada novamente. Uma sensação muito boa, porém me causava um certo receio, medo de errar, o que infelizmente, acabou acontecendo.
- E aquela sua peruca?
- O que tem?
- Prefiro você com ela.
- Eu prefiro meu cabelo maior, mas loiro mesmo.
- Você fica bonita de cabelo curto também, mas você fica diferente com a peruca morena.
- Bom, de qualquer forma, obrigada.
- De nada. Mas você só colocou ela naquele dia?
- É, eu tinha acabado de cortar o cabelo, fiquei deprimida.
- Ah! Entendi.
- Mas você gostou tanto assim?
- Sim, achei um visual bacana. Ainda mais com o vestido preto e maquiagem preta.
- Há! Eu vou colocar ela um dia só pra você.
- Muito obrigado pela preferência.
- De nada.
E a conversa fluiu com temas dos quais não me recordo mais, mas me recordo de falarmos sobre cemitérios, goticísmo e coisas do tipo. Ele queria saber mais sobre mim, e fazia perguntas que na maioria das vezes eu não sabia responder ou ficava tímida. Então começou a ficar tarde, e decidimos ir embora.
- Você vai me acompanhar até o metrô então? – Eu perguntei pra ele.
- Sim, eu te acompanho. Eu também vou pra lá.
- Então vamos, está ficando tarde já, e já era pra eu estar em casa a mais de duas horas.
- Vamos sim.
Paramos no metrô e começamos a conversar, agora longe das pessoas e longe de nossos amigos. Tudo estava em silêncio quando ele perguntou:
- Você acredita em anjos?
- Sim, acredito. Por quê?
- E em demônios? Você também acredita?
- Acredito, mas... Por quê? – Eu respondi com um olhar de quem estava começando a ficar com medo de onde aquela história iria chegar. Afinal, não é qualquer pessoa que me pararia e me perguntaria se eu acreditava em ambos - aliás, nunca ninguém teve a iniciativa de perguntar isso pra mim.
- Você me fez de alguma maneira me sentir a vontade em lhe dizer isso, não sei o motivo. – Fiz uma cara como quem não tinha entendido a afirmação. – Eu sou um anjo, você acredita?
- Sim, e por que não?
- Não sei, as pessoas não costumam acreditar. Você conhece a história dos renegados?
- Pra ser sincera já ouvi tantas histórias, que atualmente não sei em qual delas devo acreditar, é tudo muito confuso pra mim ainda. Mas me conte a sua versão!
- Bom, eu sou um renegado. Não sei exatamente o porquê, apenas sei que sou. Os renegados são aqueles que quiseram algo mais do que eles podiam, e por isso foram expulsos do dito paraíso, com isso tornaram-se humanos, ou seja, anjos renegados.
- E você não sabe o motivo de estar aqui?
- Não, eu sei que foi por orgulho e eu sei que meio que por vingança também!
- Entendi. E se eu dissesse que eu sou um anjo também?
- Verdade?
- Sim, mas eu estou aqui por amor.
Quando ele começou a contar a história dele, na hora me veio na cabeça o meu anjo. Na hora eu pensei tê-lo encontrado novamente e que eu passaria então a entender um pouco mais sobre as coisas que aconteceram conosco. Mas eu estava errada, porque ele não era o meu anjo, ele era um anjo sim, mas não o meu. Com o tempo eu fiquei decepcionada por não ter encontrado nele o meu anjo, mas hoje entendo que o Ariel apareceu em uma hora na qual eu precisava muito dele, uma hora que eu precisava aprender com ele tudo o que ele sabia. E aprendi muita coisa com esse rapaz que hoje tenho uma admiração muito grande e sempre terei. Conversamos durante algum tempo, expliquei um pouco do que eu sabia sobre a minha história e ele me contou um pouco sobre os anjos renegados e os anjos caídos – anjos caídos são os que chamamos de demônios. - Após um longo tempo, percebi que ele estava um pouco ansioso, eu sabia que ele queria me beijar e então eu disse:
- Quando estou com vontade de fazer alguma coisa, eu faço. Eu não gosto de me arrepender de não ter feito o que eu queria fazer.
- Não sou muito de me arrepender das coisas.
Ficamos por um tempo olhando nos olhos e na boca um do outro, então eu concluí:
- Então faça o que você está com vontade, sem arrependimentos.
Nos olhamos por mais um momento e então ele me puxou pela cintura e me deu um beijo. Ninguém mais do que eu sabia e sentia o quanto eu esperei por esse beijo, aliás, acho que nem eu mesma sabia. Nosso primeiro beijo, pra ser sincera, foi bem desencontrado, mas eu não conseguia parar de beijá-lo, eu queria mais, meu corpo queria empurrá-lo, mas meu coração e minha alma o queria por perto. A sensação estranha de saber que eu o conhecia de outro lugar, mas não sabia explicar exatamente de onde me fazia querer ele mais perto de mim pra abracá-lo forte como se eu estivesse compensando todas as vezes em que eu não o tive por perto. E com a conversa que tivemos, eu tinha certeza absoluta de que ele era o meu anjo perdido, meu anjo renegado. Mas depois de um tempo eu preferi fingir que era apenas uma sensação estranha por saber que ele também era um anjo e um renegado acima de tudo. Eu não estava disposta e me enganar novamente, mas no fundo eu soube que era exatamente isso o que iria acabar acontecendo.
Começamos a conversar mais vezes depois desse dia. Não ficamos de novo, nem nada por quase dois meses. Se já era difícil encontrar com ele enquanto eu ainda estava trabalhando na mesma empresa, ficaria ainda mais depois de ter sido demitida, mesmo porque não tínhamos nem o telefone um do outro, só o MSN e raramente conversávamos por ele.
Eu continuei saindo com o Dimas, porém eu me sentia cada vez mais como se eu mesma estivesse me traindo. Temos uma amiga em comum, a Isa – uma menina super meiga e delicada. Na época estava com os cabelos curtos tipo moicano pintados de vermelho, olhos escuros e é um pouco mais alta do que eu. – Uma menina que sabe aproveitar a vida. Ela namora com a Nathaly, uma garota magra, cabelo preto no ombro, uma carinha de menininha toda delicada e olhos escuros. – Duas pessoas das quais são muito legais. Em um dia qualquer, sem nada pra fazer nos encontramos na casa delas. O Dimas foi logo depois de mim. Ficamos ouvindo a Isa tocar violão e cantar.
- Isa, já está ficando tarde e daqui a pouco não tem mais metrô. Hoje é feriado, então até eu conseguir pegar um ônibus e chegar no metrô vai demorar bastante – Eu disse apressada.
- É verdade Isa, eu vou embora também porque amanhã eu trabalho e acordo cedo, mas a gente marca outro dia pra vim e bagunçar de novo. – Completou Dimas.
Despedimo-nos das meninas e fomos embora. Estávamos descendo as escadas quando ele me propôs ir pra outro lugar.
- Eu não tenho dinheiro, mas tenho saldo no VR. Topa ir tomar alguma coisa perto da minha casa?
- Pode ser, mas eu não posso demorar muito, pego metrô ainda.
- Tranquilo gata, a gente divide uma garrafa de vinho e depois eu te levo até o metrô.
No meio do caminho, como eu estava com vontade de fazer uma coisa diferente e estávamos sozinhos, surgiu a ideia de irmos pra algum lugar depois. Desde que fosse perto e fosse barato, pois como ele estava sem dinheiro, eu me propus a pagar, porém eu também não estava com tanto dinheiro assim. Liguei pra minha tia e disse que ia dormir fora. Chegamos no hotel e não preciso deixar detalhes do que aconteceu mas posso dizer que essa foi uma transa bem diferente das outras que tive. - e não porque fizemos coisas diferentes, porque foi uma transa como qualquer outra. Depois desse dia, só ficamos mais uma vez e cada um seguiu pro seu lado. Eu preferi deixar as coisas como estavam, afinal, ele sempre saia com várias e sempre deixava a coitada apaixonada. Comigo seria diferente, eu tinha me apaixonado por ele, mas isso foi antes de conhecer o Ariel. Fiz a mesma coisa que ele fazia. E a partir daí comecei a ter minhas teorias em relação à homens altos e homens baixos. Mas um tempo depois minha teoria falhou então não compensa dizer qual era.
Por volta de um mês depois, quando eu entrei no MSN, encontrei o Ariel online.
- Olá rapaz, quanto tempo.
- Olá Cherry, a gente tem que marcar um dia pra sair.
- Opa, com certeza, mas antes temos que treinar nosso beijo né. Naquele dia do metrô a gente mais se desencontrava do que se beijava.
- Mas naquele dia eu tava chapado né, tinha bebido muito. Mas meu beijo é melhor do que aquele.
- Então tudo bem, eu topo sem nenhum problema, pra quando seria?
- Pode ser na sexta?
- Tá, pode sim. Mas eu trabalho no sábado.
- Eu também trabalho, não se preocupe.
Marcamos de nos encontrar na padaria perto do trabalho dele.
- Olá, demorei!? – Cheguei com um sorriso de orelha à orelha.
- Olá Cherry, chegou bem na hora. Vou pedir um copo pra você.
Estávamos eu, ele, o Thiago, a Juliana, o Luís e um amigo deles, o Vanderlei. O Ariel e o Thiago dirigiam-se a si mesmos como “Paizão” e “Filhão”, e então o Ariel fez um comentário mais como uma pergunta do que propriamente um comentário.
- Não sei se eu prefiro essa aqui ou você, as duas são boas, mas com uma diferença. – Ele me “comparou” a um copo de cerveja, que por sinal ele conseguiu fazer esse comentário não parecer tão machista, muito pelo contrário, fez parecer romântico como um elogio à mim. Enquanto ele tomava a cerveja, ele me beijou e perguntou. - Paizão! Tenho uma pergunta. Qual a diferença entre essas duas loiras?
- Uma você está bebendo e a outra você esta abraçando e beijando. – Respondeu ele com uma cara como de quem não respondeu o que queria.
- Não paizão. A diferença é que essa é gelada, e essa aqui – Nós estávamos sentados e ele colocou seu braço em volta de mim me puxando pra mais perto dele. – essa aqui é quente! – E me deu um selinho.
- Eu até falaria isso, mas eu achei que talvez pudesse ofendê-la.
Não me ofendeu pra falar a verdade, me senti elogiada por dentro, só não soube onde enfiar a cara depois.
Ficamos na padaria até por volta das 23:00 e de lá fomos para outra “padaria” – que mais parecia com um barzinho ou lanchonete – na frente do metrô Liberdade. Um tempo depois a Juliana foi embora, e o metrô iria fechar, eu e o Ariel já estávamos preparados para irmos embora pra outro lugar. E então o Vanderlei disse que já estava indo também e que conhecia um lugar perto da casa dele que nós iríamos gostar. Então fomos os três embora, ficando no barzinho apenas o Thiago e o Luis.
Quando chegamos na estação da lapa vimos um hotel porém não havia mais vagas, e já se passavam da 00:00, ou seja, não tinha mais trêm ou metrô disponível também. Então ele disse que nós poderíamos ficar na casa dele e do amigo sem problema, afinal, ele nos levou até lá. No caminho para a casa dele, o Ariel me deu uma flor vermelha e disse:
- Você pediu romantismo não foi? Essa flor é romântica.
- Obrigada, vou guardá-la com todo o amor e carinho. – Coloquei a flor na orelha e dei um beijo nele.
Queria ter ela guardada ainda, o Ariel foi um amigo que estará sempre no meu coração, um amigo que me fez enxergar muitas coisas e me ensinou muitas formas de se viver.
Demos uma parada no posto de gasolina pro Ariel ir ao banheiro, e continuamos nosso trajeto pra casa do Vanderlei. Chegando lá, conversamos um pouco e logo depois, eu e o Ariel tomamos um banho enquanto o Vanderlei foi dormir. E então aconteceu, a sensação que até aquele momento eu jamais havia sentido antes, era como se naquele instante fossemos um só. Como se ele realmente fosse meu anjo perdido.
Eu conseguia sentir o cheiro dele mesmo se eu parasse de respirar. Foi tudo tão intenso que eu fiquei quase uma semana me sentindo como se estivesse nas nuvens, aliás, eu estava nas nuvens. Eu me via no meu antigo jardim, correndo pelas mais diversas flores possíveis. Uma sensação inesquecível, uma sensação inexplicável. A sensação de conhecer ele não estava errada, o que estava errado era quem eu pensei que ele fosse.
- Gostei da peruca!
- Obrigada.
- De nada! Mas por que colocou?
- Então você não viu ainda? – ele fez como quem não entendeu – Estou com os cabos curtos. Tive de cortá-los, começaram a cair.
- Ah! Entendi. Mas eles crescem. Não se preocupe.
E esse foi o único dia do qual eu me lembro que tivemos uma conversa entre duas pessoas normais, sem que soubéssemos de nossos passados semelhantes. Haviamos nos encontrado na padaria perto da empresa que trabalhávamos, porém eu havia sido demitida no dia anterior e fui apenas comemorar meu novo emprego que acabara de conseguir. Estávamos com nossos amigos, eu estava saindo com o DImas na época, mas como ninguém sabia até então não quis dar a entender que estávamos juntos. O que me fez me arrepender depois, pois ele me beijou na frente do Ariel depois de eu ter falado que não tinhamos ficado e nem estaríamos ficando. O Ariel me fitava e eu me sentia desejada novamente. Uma sensação muito boa, porém me causava um certo receio, medo de errar, o que infelizmente, acabou acontecendo.
- E aquela sua peruca?
- O que tem?
- Prefiro você com ela.
- Eu prefiro meu cabelo maior, mas loiro mesmo.
- Você fica bonita de cabelo curto também, mas você fica diferente com a peruca morena.
- Bom, de qualquer forma, obrigada.
- De nada. Mas você só colocou ela naquele dia?
- É, eu tinha acabado de cortar o cabelo, fiquei deprimida.
- Ah! Entendi.
- Mas você gostou tanto assim?
- Sim, achei um visual bacana. Ainda mais com o vestido preto e maquiagem preta.
- Há! Eu vou colocar ela um dia só pra você.
- Muito obrigado pela preferência.
- De nada.
E a conversa fluiu com temas dos quais não me recordo mais, mas me recordo de falarmos sobre cemitérios, goticísmo e coisas do tipo. Ele queria saber mais sobre mim, e fazia perguntas que na maioria das vezes eu não sabia responder ou ficava tímida. Então começou a ficar tarde, e decidimos ir embora.
- Você vai me acompanhar até o metrô então? – Eu perguntei pra ele.
- Sim, eu te acompanho. Eu também vou pra lá.
- Então vamos, está ficando tarde já, e já era pra eu estar em casa a mais de duas horas.
- Vamos sim.
Paramos no metrô e começamos a conversar, agora longe das pessoas e longe de nossos amigos. Tudo estava em silêncio quando ele perguntou:
- Você acredita em anjos?
- Sim, acredito. Por quê?
- E em demônios? Você também acredita?
- Acredito, mas... Por quê? – Eu respondi com um olhar de quem estava começando a ficar com medo de onde aquela história iria chegar. Afinal, não é qualquer pessoa que me pararia e me perguntaria se eu acreditava em ambos - aliás, nunca ninguém teve a iniciativa de perguntar isso pra mim.
- Você me fez de alguma maneira me sentir a vontade em lhe dizer isso, não sei o motivo. – Fiz uma cara como quem não tinha entendido a afirmação. – Eu sou um anjo, você acredita?
- Sim, e por que não?
- Não sei, as pessoas não costumam acreditar. Você conhece a história dos renegados?
- Pra ser sincera já ouvi tantas histórias, que atualmente não sei em qual delas devo acreditar, é tudo muito confuso pra mim ainda. Mas me conte a sua versão!
- Bom, eu sou um renegado. Não sei exatamente o porquê, apenas sei que sou. Os renegados são aqueles que quiseram algo mais do que eles podiam, e por isso foram expulsos do dito paraíso, com isso tornaram-se humanos, ou seja, anjos renegados.
- E você não sabe o motivo de estar aqui?
- Não, eu sei que foi por orgulho e eu sei que meio que por vingança também!
- Entendi. E se eu dissesse que eu sou um anjo também?
- Verdade?
- Sim, mas eu estou aqui por amor.
Quando ele começou a contar a história dele, na hora me veio na cabeça o meu anjo. Na hora eu pensei tê-lo encontrado novamente e que eu passaria então a entender um pouco mais sobre as coisas que aconteceram conosco. Mas eu estava errada, porque ele não era o meu anjo, ele era um anjo sim, mas não o meu. Com o tempo eu fiquei decepcionada por não ter encontrado nele o meu anjo, mas hoje entendo que o Ariel apareceu em uma hora na qual eu precisava muito dele, uma hora que eu precisava aprender com ele tudo o que ele sabia. E aprendi muita coisa com esse rapaz que hoje tenho uma admiração muito grande e sempre terei. Conversamos durante algum tempo, expliquei um pouco do que eu sabia sobre a minha história e ele me contou um pouco sobre os anjos renegados e os anjos caídos – anjos caídos são os que chamamos de demônios. - Após um longo tempo, percebi que ele estava um pouco ansioso, eu sabia que ele queria me beijar e então eu disse:
- Quando estou com vontade de fazer alguma coisa, eu faço. Eu não gosto de me arrepender de não ter feito o que eu queria fazer.
- Não sou muito de me arrepender das coisas.
Ficamos por um tempo olhando nos olhos e na boca um do outro, então eu concluí:
- Então faça o que você está com vontade, sem arrependimentos.
Nos olhamos por mais um momento e então ele me puxou pela cintura e me deu um beijo. Ninguém mais do que eu sabia e sentia o quanto eu esperei por esse beijo, aliás, acho que nem eu mesma sabia. Nosso primeiro beijo, pra ser sincera, foi bem desencontrado, mas eu não conseguia parar de beijá-lo, eu queria mais, meu corpo queria empurrá-lo, mas meu coração e minha alma o queria por perto. A sensação estranha de saber que eu o conhecia de outro lugar, mas não sabia explicar exatamente de onde me fazia querer ele mais perto de mim pra abracá-lo forte como se eu estivesse compensando todas as vezes em que eu não o tive por perto. E com a conversa que tivemos, eu tinha certeza absoluta de que ele era o meu anjo perdido, meu anjo renegado. Mas depois de um tempo eu preferi fingir que era apenas uma sensação estranha por saber que ele também era um anjo e um renegado acima de tudo. Eu não estava disposta e me enganar novamente, mas no fundo eu soube que era exatamente isso o que iria acabar acontecendo.
Começamos a conversar mais vezes depois desse dia. Não ficamos de novo, nem nada por quase dois meses. Se já era difícil encontrar com ele enquanto eu ainda estava trabalhando na mesma empresa, ficaria ainda mais depois de ter sido demitida, mesmo porque não tínhamos nem o telefone um do outro, só o MSN e raramente conversávamos por ele.
Eu continuei saindo com o Dimas, porém eu me sentia cada vez mais como se eu mesma estivesse me traindo. Temos uma amiga em comum, a Isa – uma menina super meiga e delicada. Na época estava com os cabelos curtos tipo moicano pintados de vermelho, olhos escuros e é um pouco mais alta do que eu. – Uma menina que sabe aproveitar a vida. Ela namora com a Nathaly, uma garota magra, cabelo preto no ombro, uma carinha de menininha toda delicada e olhos escuros. – Duas pessoas das quais são muito legais. Em um dia qualquer, sem nada pra fazer nos encontramos na casa delas. O Dimas foi logo depois de mim. Ficamos ouvindo a Isa tocar violão e cantar.
- Isa, já está ficando tarde e daqui a pouco não tem mais metrô. Hoje é feriado, então até eu conseguir pegar um ônibus e chegar no metrô vai demorar bastante – Eu disse apressada.
- É verdade Isa, eu vou embora também porque amanhã eu trabalho e acordo cedo, mas a gente marca outro dia pra vim e bagunçar de novo. – Completou Dimas.
Despedimo-nos das meninas e fomos embora. Estávamos descendo as escadas quando ele me propôs ir pra outro lugar.
- Eu não tenho dinheiro, mas tenho saldo no VR. Topa ir tomar alguma coisa perto da minha casa?
- Pode ser, mas eu não posso demorar muito, pego metrô ainda.
- Tranquilo gata, a gente divide uma garrafa de vinho e depois eu te levo até o metrô.
No meio do caminho, como eu estava com vontade de fazer uma coisa diferente e estávamos sozinhos, surgiu a ideia de irmos pra algum lugar depois. Desde que fosse perto e fosse barato, pois como ele estava sem dinheiro, eu me propus a pagar, porém eu também não estava com tanto dinheiro assim. Liguei pra minha tia e disse que ia dormir fora. Chegamos no hotel e não preciso deixar detalhes do que aconteceu mas posso dizer que essa foi uma transa bem diferente das outras que tive. - e não porque fizemos coisas diferentes, porque foi uma transa como qualquer outra. Depois desse dia, só ficamos mais uma vez e cada um seguiu pro seu lado. Eu preferi deixar as coisas como estavam, afinal, ele sempre saia com várias e sempre deixava a coitada apaixonada. Comigo seria diferente, eu tinha me apaixonado por ele, mas isso foi antes de conhecer o Ariel. Fiz a mesma coisa que ele fazia. E a partir daí comecei a ter minhas teorias em relação à homens altos e homens baixos. Mas um tempo depois minha teoria falhou então não compensa dizer qual era.
Por volta de um mês depois, quando eu entrei no MSN, encontrei o Ariel online.
- Olá rapaz, quanto tempo.
- Olá Cherry, a gente tem que marcar um dia pra sair.
- Opa, com certeza, mas antes temos que treinar nosso beijo né. Naquele dia do metrô a gente mais se desencontrava do que se beijava.
- Mas naquele dia eu tava chapado né, tinha bebido muito. Mas meu beijo é melhor do que aquele.
- Então tudo bem, eu topo sem nenhum problema, pra quando seria?
- Pode ser na sexta?
- Tá, pode sim. Mas eu trabalho no sábado.
- Eu também trabalho, não se preocupe.
Marcamos de nos encontrar na padaria perto do trabalho dele.
- Olá, demorei!? – Cheguei com um sorriso de orelha à orelha.
- Olá Cherry, chegou bem na hora. Vou pedir um copo pra você.
Estávamos eu, ele, o Thiago, a Juliana, o Luís e um amigo deles, o Vanderlei. O Ariel e o Thiago dirigiam-se a si mesmos como “Paizão” e “Filhão”, e então o Ariel fez um comentário mais como uma pergunta do que propriamente um comentário.
- Não sei se eu prefiro essa aqui ou você, as duas são boas, mas com uma diferença. – Ele me “comparou” a um copo de cerveja, que por sinal ele conseguiu fazer esse comentário não parecer tão machista, muito pelo contrário, fez parecer romântico como um elogio à mim. Enquanto ele tomava a cerveja, ele me beijou e perguntou. - Paizão! Tenho uma pergunta. Qual a diferença entre essas duas loiras?
- Uma você está bebendo e a outra você esta abraçando e beijando. – Respondeu ele com uma cara como de quem não respondeu o que queria.
- Não paizão. A diferença é que essa é gelada, e essa aqui – Nós estávamos sentados e ele colocou seu braço em volta de mim me puxando pra mais perto dele. – essa aqui é quente! – E me deu um selinho.
- Eu até falaria isso, mas eu achei que talvez pudesse ofendê-la.
Não me ofendeu pra falar a verdade, me senti elogiada por dentro, só não soube onde enfiar a cara depois.
Ficamos na padaria até por volta das 23:00 e de lá fomos para outra “padaria” – que mais parecia com um barzinho ou lanchonete – na frente do metrô Liberdade. Um tempo depois a Juliana foi embora, e o metrô iria fechar, eu e o Ariel já estávamos preparados para irmos embora pra outro lugar. E então o Vanderlei disse que já estava indo também e que conhecia um lugar perto da casa dele que nós iríamos gostar. Então fomos os três embora, ficando no barzinho apenas o Thiago e o Luis.
Quando chegamos na estação da lapa vimos um hotel porém não havia mais vagas, e já se passavam da 00:00, ou seja, não tinha mais trêm ou metrô disponível também. Então ele disse que nós poderíamos ficar na casa dele e do amigo sem problema, afinal, ele nos levou até lá. No caminho para a casa dele, o Ariel me deu uma flor vermelha e disse:
- Você pediu romantismo não foi? Essa flor é romântica.
- Obrigada, vou guardá-la com todo o amor e carinho. – Coloquei a flor na orelha e dei um beijo nele.
Queria ter ela guardada ainda, o Ariel foi um amigo que estará sempre no meu coração, um amigo que me fez enxergar muitas coisas e me ensinou muitas formas de se viver.
Demos uma parada no posto de gasolina pro Ariel ir ao banheiro, e continuamos nosso trajeto pra casa do Vanderlei. Chegando lá, conversamos um pouco e logo depois, eu e o Ariel tomamos um banho enquanto o Vanderlei foi dormir. E então aconteceu, a sensação que até aquele momento eu jamais havia sentido antes, era como se naquele instante fossemos um só. Como se ele realmente fosse meu anjo perdido.
Eu conseguia sentir o cheiro dele mesmo se eu parasse de respirar. Foi tudo tão intenso que eu fiquei quase uma semana me sentindo como se estivesse nas nuvens, aliás, eu estava nas nuvens. Eu me via no meu antigo jardim, correndo pelas mais diversas flores possíveis. Uma sensação inesquecível, uma sensação inexplicável. A sensação de conhecer ele não estava errada, o que estava errado era quem eu pensei que ele fosse.
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