domingo, 10 de abril de 2011

2º Capítulo

Não me recordo do dia em que nos conhecemos, mas me recordo do dia em que eu soube quem era ele, apesar de confundi-lo no início. Alguma coisa me dizia para aceitar o seu convite e então eu aceitei.
Ele sempre me falava que ele não era quem eu imaginava, eu sempre batia o pé e afirmava que ele era sim. Depois eu descobri que ele realmente era apenas mais um anjo que apareceu na minha vida, pra me ensinar a enxergar as coisas com outros olhos. Cada vez que eu chegava perto dele, mais eu tinha vontade de abraçá-lo e levá-lo onde ninguém pudesse nos atrapalhar. Eu só queria amar ele, mesmo que só um pouco, ele me fazia me sentir bem e eu não me importava se ele não era o meu anjo realmente.
No dia seguinte, iríamos para o trabalho e eu queria me lembrar dele a qualquer momento, então peguei uma pequena recordação dele, o bracelete dele, esses que você compra em qualquer barraquinha na frente da “Galeria do Rock”, com duas tirinhas na cor preta e duas fivelas prendendendo as tiras, como num cinto. Comecei a usá-la como se fosse minha pele, meu amuleto. Depois de um tempo até comprei um anel prateado e gravei o nome dele por fora e a data em que ficamos pela primeira vez por dentro. Ariel, é esse o nome dele, meu anjo da sabedoria. O anel e o bracelete eram as únicas lembranças concretas que tinha dele - o bracelete infelizmente eu o perdi e o anel eu usava todos os dias, mas deixei de usar um tempo depois. - Tivemos momentos muito bons, rimos muito, brincamos muito e aprontamos muito também. Com o tempo eu vi que de certa forma, ele era meu anjo também, mas não aquele do qual eu sempre procurei. Mas eu o agradeço por ter aparecido na minha vida, me fazendo enxergar as coisas como elas realmente são. Hoje ele está casado com uma garota, Joana, a qual eu tenho um enorme carinho por colocar amor no coração dele e fazer ele entender que o amor não está apenas nos contos de fadas.

Um pouco antes de me separar de meu ex-marido, estávamos em um pé de guerra praticamente todos os dias. Não tinha mais sentido continuar com esse casamento. Tínhamos nossa filha, mas nós mais brigávamos do que viviamos em harmonia. Eu decidi começar a trabalhar no período da tarde com telemarketing pra ver se as discuções diminuíam, afinal, passariamos menos tempo juntos. Nas primeiras duas semanas até que deu certo, mas depois só piorou. Essa parte da história não tenho nenhum orgulho em contar, porém o que seria um livro autobiográfico se eu não contasse?
De tantas brigas, tantas discussões que tinham em casa, comecei a me abrir para meus colegas de trabalho, não sou nenhuma santa mas todos sabem que é nesse momento, que os oportunistas agem. Um certo dia, entre uma conversa e outra, contei aos meus colegas que o meu casamento tinha chego ao ponto final definitivo. Quando estávamos indo embora, alguns foram para o lado do metrô São Judas e eu fui para o lado do mercado Wall Mart - um supermercado que fica na avenida jabaquara - com o Roberto. Era um sabádo desses bem ensolarados e bem quentes também.
Contei como meu casamento estava se destruindo e começamos a conversar, e como se fosse a coisa mais natural do mundo, nos beijamos. Esse foi o primeiro dia que ficamos. Os outros quatro foram piores, pois além do beijo, aconteceu algo a mais. No terceiro dia em que saímos, ele atende a ligação de uma garota, e eu quis saber quem era, apenas por curiosidade.

- Eu namoro, mas a gente discutiu esses dias.
- Então quer dizer que você está traindo a sua namorada comigo?
- Ué, e você? Você é casada.
- É diferente, eu não te escondi isso e meu casamento já está acabado há muito tempo.
- Pra mim quando não tem sentimento não é uma traição.
- Se você acha assim, então eu não estou traindo o meu marido também.
- Ai é diferente, você é casada e eu não.
- Da na mesma Roberto, namoro é compromisso da mesma forma, só não tem nada assinado. Como você pode fazer isso? Quem sou eu pra falar, mas....

Nesse dia voltamos juntos no mesmo ônibus e enquanto conversávamos lembro que a namorada dele ligou pra ele de novo, onde ele disse que já estava indo pra casa. E então no dia seguinte saímos pela última vez, não queria manter um relacionamento fora do casamento, eu estava me sentindo mal e o Roberto era só um caso a parte e eu não teria nada com ele por não gostar nem nada dele.

- Eu vou ser pai!
- O que? Como assim?
- Eu vou ser pai, minha mina tá grávida.
- Nossa, tipo... Parabéns, mas... Vocês não estavam brigados? De quanto tempo ela está?
- Três meses, a gente se acertou, nunca estivemos brigados na realidade.
- Tá, vocês se acertaram e ao invés de você estar com ela agora, você continua aqui comigo!? Mesmo sabendo que ela está grávida. Quando você ficou sabendo disso Roberto?
- Faz um tempo já, inclusive amanhã eu me mudo pra casa dela.
- Ahn!?
- Vou me mudar pra casa dela, eu e o pai dela conversamos num boteco perto da casa dele, tomamos umas e outras e ai decidimos que seria melhor assim.
- E como vocês pretendem sustentar essa criança?
- Bom, eu estava pensando. Ela não vai ficar sabendo disso porque eu não vou falar, mas eu vou voltar com o que eu fazia antes.
- Você é louco Roberto. Você acha que ela não vai desconfiar se você aparecer com mais dinheiro do que deveria em casa? Você é retardado? As pessoas ligadas à trafico morrem cedo. E ai? Ela e seu filho ficam como sem você? Na rua?
- Não, é só por um tempo e ela nem vai saber disso.
- Bom, você é assim mesmo né, não tem jeito. Faça o que você quiser, eu só estou tentando abrir os seus olhos enquanto é tempo e é bom a gente parar por aqui de qualquer forma.

A partir desse dia não saímos mais, eu já tinha dado o primeiro passo pra minha separação e não estava nem um pouco a fim de dar o primeiro passo em outra que nem tinha começado ainda e envolvia uma criança que nem tinha nascido ainda. E eu não concordei com as atitudes dele, apesar de saber que eu estava totalmente errada, eu falei a verdade pra ele de que eu era casada, e depois quando já rolou tudo ele vem me dizer que namora e que iria ser pai dali 7 meses. Eu não estava certa, pois eu também traí o meu marido, mas não omiti nada de ninguém.
Nesse meio tempo ele comentou com todos os colegas de trabalho que namorava e que ela era bancária e estava grávida de 3 meses. Todos ficaram felizes, deram-lhe os parabéns e tudo, enquanto eu fiquei de canto com nojo dele. Como ele podia ser tão frio daquele jeito? Aproximadamente duas semanas depois, disse ele que a namorada estava internada no hospital e que ela havia perdido o bebê.
Todos nós sabemos que tudo o que a gente faz, gera conseqüências e nem sempre elas são boas. Porém, algumas semanas depois eu descobri que estava grávida e como eu não fiz sozinha eu decidi contar.

- Eu tenho uma coisa pra te mostrar.
- O que?
- Isso – Eu peguei um papel dobradinho do bolso e dei pra ele ver.
- E o que é que tem isso?
- Você sabe o que é isso?
- Sim, um exame de gravidez. E?
- Você sabe qual é o resultado?
- Sim, parabéns, você está grávida.
- Você sabe que eu estou falando pra você porque você é o pai não sabe? Só achei que você deveria saber que estou grávida de você.
- Mas você é casada, pode ser dele e se não for você pode falar que é.
- Não Roberto, não é dele. É seu e eu não vou fazer isso, nosso casamento já acabou e mentir não ajudaria nada.
- Bom, eu não posso fazer nada, eu não te obriguei a fazer nada, você fez porque você quis, não tenho nada com isso.
- Só achei que você iria gostar de saber, já que sua namorada perdeu o bebê né. Acontece que eu não quero esse filho também, mas a minha obrigação era contar pra você o que está acontecendo, eu não consigo nem olhar pra sua cara mais Roberto. Só vim falar com você por causa disso.
- Tá, obrigado!
- De nada.

Tudo bem que ele realmente não poderia fazer nada, mas ele achou o que? Que eu queria me casar com ele? Não mesmo, um cara que trai a namorada grávida com certeza não seria um bom marido, muito menos um bom pai. E eu não queria sair de um casamento acabado pra começar um relacionamento que não iria ser nada diferente, aliás, seria até pior por ambos não conseguirem nem olhar na cara um do outro.

No dia seguinte que eu falei da gravidez não o vi mais na empresa, ao contrário, ele me passou o número do celular dele errado e pediu demissão. Como eu não sou tão burra assim, dei o meu jeito e consegui o telefone certo dele e liguei pra ele dizendo que ele não fugiria da responsabilidade e eu acharia ele em qualquer parte.

- Você só se esqueceu de uma coisa Roberto, não adianta você fugir, não adianta você fingir que não aconteceu nada. O passado mais cedo ou mais tarde, vem à tona e todos saberão. Como que você vai falar pra sua namorada que você paga pensão pra uma mulher se você não falar que é pro seu filho? Não fuja da sua responsabilidade porque você não sabe do que eu sou capaz pra defender o meu. Não queira me prejudicar, porque por enquanto eu não fiz nada. Mas se eu me sentir ameaçada, você vai ver essa história chegar até ela.
- Só me liga se for pra falar que a criança nasceu.
- Pode ter certeza que eu vou ligar e se você mudar o número do celular, tenho todos os seus dados e te coloco na justiça.

Uma semana depois eu tive um sangramento intenso acompanhado de uma dor muito forte e então perdi o bebê. Nesse mesmo dia, passei a tarde inteira no PS e quando cheguei em casa já não estava mais agüentando essa mentira e decidi abrir o jogo com meu ex-marido. Contei tudo o que tinha acontecido e no dia seguinte eu estava de volta à casa das minhas tias, o último lugar que eu queria estar naquele momento, mas era o único que eu tinha. Pedi demissão da empresa e parti em busca de outro emprego.

Logo que eu saí do meu primeiro trabalho, consegui outro com um salário melhor praticamente na semana seguinte. O treinamento durou duas semanas e depois fomos pra própria empresa fazer as escutas pra não nos sentirmos tão perdidos quando falássemos com o cliente. Meu primeiro dia na linha não foi tão diferente de todos os outros, toda hora eu ficava nervosa e praticamente gaguejava ao falar com o cliente, mas fiz o máximo pra conseguir vender. Algumas semanas depois já estava mais entrosada com a minha turma e até conheci um rapaz que diga-se de passagem é um fofo. O Dimas é um doce de pessoa, tem o cabelo e os olhos escuros, é alto e magro. Um dia ensolarado e quente, eu e ele descemos juntos no intervalo e ficamos na porta conversando. Ele tentou me roubar um beijo mas eu me esquivei porque não queria beijá-lo naquele momento, mas um tempo depois ele me pegou desprevinida e conseguiu me roubar um beijo.

- Arianos não são de desistir fácil. - Ele me disse ao entrarmos na empresa.
- Percebi, mas capricornianas se apaixonam fácil.
- É só você não se apaixonar.
- Como se desse pra escolher né Dimas. - Eu dei um sorrisinho de lado.

Apesar de não comentarmos com ninguém sobre nós, pouco a pouco as pessoas foram desconfiando que estávamos ficando, mas eu sempre negava apesar de saber que isso não adiantaria nada. Enquanto eu ainda trabalhava na Rencall continuamos ficando, fui na biblioteca da Vergueiro com ele por conta de um trabalho que ele tinha que fazer pra faculdade. Nos sentamos no lado de fora pois a biblioteca estava fechada e pra passar o tempo ficamos conversando. Soube que ele fez uma participação no filme "Carandiru", a parte que todos estão deitados e nús - hahaha - e depois desse dia eu assisti umas 3 vezes essa parte só pra tentar encontrar ele, mas não consegui encontrar. Depois de um tempo nos levantamos e ficamos próximo a entrada da estação, pois eu já ia embora e ele tinha outras coisas pra resolver também. Falei pra ele que eu já estava me apaixonando por ele e ele me disse pra não fazer isso comigo mesma. Descobri que ele já foi gótico também, tem um filho pequeno e também não deu certo com a mãe do garoto. Um tempo depois fomos embora.
São poucas as coisas que me lembro dele, mas uma música que sempre vai me lembrar dele é a Black do Pearl Jam, ele adora essa música. Aos poucos fomos nos distanciando, mas eu ainda continuava apaixonada por ele. E como eu sabia que ele não estava nem um pouco apaixonado, por orgulho próprio comentei que eu havia me vacinado contra ele. Ele estranhou meu comentário e então eu expliquei que não me apaixonaria por ele. Fiquei um bom tempo meio apaixonadinha por ele, mas como tudo nessa vida é passageiro, paixão também é.

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