domingo, 12 de agosto de 2012

6° Capítulo


Acordei por volta das 10:00, me arrumei e fui pra galeria do rock aumentar meu alargador de 1 pra 3. Logo depois entrei no trabalho e como era de se esperar, fiquei pensativa o dia inteiro. Sentei-me à mesa ao lado da porta, longe de tudo e de todos. Não sabia se naquele dia eu ia sair realmente com o Ariel, ou iria acontecer igual à noite passada.
O dia passou devagar, mas finalmente mais um dia de trabalho se fora. Desci na liberdade e liguei pro Ariel, que estava me esperando com alguns dos nossos amigos em comum na frente da porta do trabalho. Fomos pro bar do metrô jogar conversa fora e tomar algumas cervejinhas também. Uma situação cômica e um tanto quanto bizarra. O Ariel se sentou à mesa e sem querer derrubou tudo o que tinha nela, inclusive um copo que ele conseguiu deixar vazado, - ele deixou duas pontas no copo perfeitamente iguais, uma de frente com a outra, formando um arco no formato de lua deitada dos dois lados.
Antes de irmos pro hotel, passamos no Habbib’s e compramos algumas esfihas pra levar caso ficássemos com fome mais tarde. É estranho, mas é nas situações mais grotescas que percebemos que o problema está com a gente, e não com o outro. Me senti a mulher mais feliz naquele momento.
- Não acredito nisso, que porcaria! Justo hoje!?
- O que foi Cherry? Algum problema?
- Nada, é que tipo... Agora eu é que acho que não vai rolar nada.
- Por quê?
- Ahn... Acabou de descer pra mim! Quer motivo maior!?
- Ah, é isso. Relaxa. Acontece, não tem problema nenhum.
- Pra você não, mas pra mim tem. É nojento isso Ariel, sério!
- Mas é normal e eu não tenho nojo de você Cherry. Esquece isso, vem cá vem! – Ele me deu um abraço e um beijo que me fez ver estrelas.
Qualquer mulher no meu lugar sentiria a mesma coisa que eu. Eu me senti tão querida que nem pensei mais na situação. Não sei se com todas as mulheres são assim, mas eu quando estou naqueles dias me sinto mais fogosa. A maioria dos homens não gosta de fazer nada quando a mulher está naqueles dias, justamente por ser uma coisa nojenta, é normal sim, mas não deixa de ser nojenta. Depois de um tempo ligamos a TV e ficamos assistindo um filme tosco que estava passando, é engraçado como de madrugada só passa filme sem nexo.
- Sabe, um amigo meu esses dias me disse que às vezes ele vai no Hotel e fica jogando baralho ou vendo TV! – Eu comentei pra descontrair.
- Mas é gostoso, pra relaxar.
- Você não entendeu. Ele vai APENAS pra jogar baralho e ver TV! Pô, se é pra fazer isso que fiquei em casa, pelo menos você não gasta dinheiro.
- Se ele não se importa em usar o dinheiro dele desse jeito.
Começamos a tentar prestar atenção no filme quando começamos a ouvir uns barulhos estranhos no quarto vizinho. Abaixamos o volume da TV e começamos a tentar ouvir o que o suposto “casal” estava dizendo.
- Você tá ouvindo? – O Ariel me perguntou.
- Sim, tipo... O cara tá espancando ela, só pode.
- Há, com certeza.
- Não foi você que me disse um dia que ficou com uma mina que pediu uma surra praticamente!? Então, acho que ela estava pedindo essa surra... haha
- Claro, claro. Ei, eu acho que tem dois caras lá com ela.
- É mesmo, tem duas vozes masculinas diferentes.
- É uma puta que tá lá dentro.
- Com dois caras, o que mais poderia ser!?
De repente ouvimos alguma coisa como:
- Assim não dá meu, tem sangue ai.
- Mas já tá no final, eu juro.
- Não vai rolar com sangue não. Na boa.

Então ouvimos o primeiro indo tomar banho, logo em seguida foi o segundo. Então eles começaram a falar sobre chamar a polícia pelo motivo que nem o Ariel e nem eu conseguimos entender.
- Ahá! Era o que me faltava, a gente tá aqui de boa e vem esses bestas ai pra estragar. Poxa, faz o serviço e vai embora meu. Se não quer também, vai embora. – Eu disse com a voz um pouco alterada.
- Ahn? Como assim?
- Já imaginou. A gente tá aqui tranqüilo, curtindo a noite sem atrapalhar ninguém, ai chega a polícia. Não vai ter clima mais, mesmo que a gente nem saia daqui.
- Mas é porque eles não querem pagar o preço pra ela, porque ela tá naqueles dias.
- Hoje é o dia pras mulheres ficarem naqueles dias. Chega a ser cômico uma coisa dessas. Mas mesmo assim, não quer vai embora.
- E acho que são três e não dois.
- Nossa, onde tem tanto lugar assim!? Bom, deixa quieto, melhor nem pensar. – Dei uma risada baixa. – Deixa esses quatro pra lá, aumenta o volume da TV vai.
- Vem cá vem, fica abraçadinha comigo aqui.

Ficamos alguns segundos em silêncio quando ele comentou:
- Sabe Cherry, a gente forma um bom casal. A gente combina.
- Eu sei. Por que você gosta dela e não de mim? Nós somos perfeitos juntos.
- Esquece isso Cherry, deixa essa história pra lá.
- Como posso conseguir deixar pra lá se eu sei que isso é verdade!?
- Porque quem está aqui comigo é você e não ela.
- Mas você queria que fosse ela. Poderia ser ela.
- Prefiro assim, e não é ela que está aqui, é você. Eu já disse.
- Ela não parece ser do tipo que você iria gostar.
- Como assim?
- Não sei, ela aparenta ser muito meiguinha, certinha, sei lá.
- Mas você também é.
- Tá, você entendeu vai. Pra ser mais franca, ela é meio boba.
- Entendi sim.. Podemos falar de outra coisa então?

Fiquei pensando, se ele achava que nós formávamos um bom casal, por que ele não poderia arriscar comigo? Eu não conseguia entender direito o que se passava dentro da cabeça dele.
Enquanto ele dormia, eu comecei a fazer carinho nele e fiquei pensando nas coisas em que gostamos de fazer. Nós éramos do mesmo mundo, somos iguais e no que somos diferentes completamos um ao outro, então porque não daria certo? Temos todos os pontos positivos pra isso acontecer. Mas eu preferia deixar ele perceber isso sozinho, eu já havia entendido que não adiantaria eu falar, eu teria que deixá-lo enxergar sozinho, mesmo sabendo que não iríamos ficar juntos.
Amanheceu, tomamos uma ducha e fomos embora. Demos uma passada na padaria, eu comprei um maço de cigarro e ele comprou um refrigerante. Tomei um gole e sentamos na mesinha do lado de fora.
- Você vai chegar atrasada não vai?
- Vou, mas de sábado é tranqüilo lá, não se preocupe com isso. Mesmo porque prefiro ficar com você até o último minuto.
Fiquei aera por um momento e então ele disse:
- Bom, eu vou subir porque você sabe que aqui, mesmo de sábado é a mesma coisa.
- Tá, eu to indo também, não quero chegar tão atrasada.
- Me dá um abraço aqui.
Despedimo-nos e eu segui para o metrô. Cheguei por volta das 10:20 no trabalho. Achei que não houvesse ninguém na sala. Percebi que alguns estavam no fundo. No meu setor só tinham quatro pessoas, o Jey, o Henrique, o Almir e o Alison. Nós somos em aproximadamente quinze pessoas e não tinha nem a metade.
- Nossa, tipo... Cadê o povo? Ninguém vem trabalhar mais não é? - Eu perguntei olhando pros quatro esperando a resposta de algum deles.
- Quando eu cheguei tava tudo vazio aqui dentro. – Comentou o Alison.
- Quem vê de fora pensa que não tem ninguém aqui dentro – Completou Henrique.
- O povo deve ter bebido muito ontem e não agüentou vim trabalhar- Concluiu o Almir.
- Quando eu entrei achei que estivesse vazio mesmo, tanto que fiquei parada por um tempo na porta sem ação, não sabia se entrava ou se ia embora, lá fora também tá quase tudo vazio.
- Mas você não pode falar nada, já são 10:30, chegou atrasada também né Cherry?! – Disse o Jey.
- Nem tanto vai. Tem dias que chego mais atrasada.
- É mesmo Cherry e você está com a mesma roupa de ontem. Dormiu fora é? – Perguntou Almir.
- Eu nem dormi direito ainda, to morta de sono.
- A noite deve ter sido boa então! – Henrique
- Foi sim, foi ótima.
- Onde é que você foi hein danadinha?
- Já esta querendo saber demais não acha?
- Foi mal, perguntei por curiosidade.
- To brincando. Eu saí com o Ariel ontem.
- Então está explicado.

Aos poucos mais pessoas começaram a chegar, porém, como de praxe, sempre tinha alguém faltando, nunca estavam todos. Fui para a liberdade comprar alguns esmaltes. Começou a chover, e nesse dia não me incomodei em chegar molhada em casa. Senti como se a chuva tivesse limpado todos meus pensamentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário