Eu me recordo do seu olhar, do movimento que fazia com a boca dando sinais de que queria algo mais, porém ainda não tinha coragem de dizer. Eu por um momento me perguntei: “Mas o que é isso? Eu também quero! Por que!?” Eu nem o conhecia direito, Ariel era o nome dele e nada mais eu sabia do rapaz que trabalhava na mesma empresa que eu. Acho que teve uma única vez que conseguimos nos falar, mesmo que por alguns segundos. Como eu tinha acabado de cortar o cabelo bem curtinho, fui ao trabalho com uma peruca da minha tia, meus olhos azuis se destacavam com a cor marrom da peruca e então lembro que ele me disse entre nossa troca de turno:
- Gostei da peruca!
- Obrigada.
- De nada! Mas por que colocou?
- Então você não viu ainda? – ele fez como quem não entendeu – Estou com os cabos curtos. Tive de cortá-los, começaram a cair.
- Ah! Entendi. Mas eles crescem. Não se preocupe.
E esse foi o único dia do qual eu me lembro que tivemos uma conversa entre duas pessoas normais, sem que soubéssemos de nossos passados semelhantes. Haviamos nos encontrado na padaria perto da empresa que trabalhávamos, porém eu havia sido demitida no dia anterior e fui apenas comemorar meu novo emprego que acabara de conseguir. Estávamos com nossos amigos, eu estava saindo com o DImas na época, mas como ninguém sabia até então não quis dar a entender que estávamos juntos. O que me fez me arrepender depois, pois ele me beijou na frente do Ariel depois de eu ter falado que não tinhamos ficado e nem estaríamos ficando. O Ariel me fitava e eu me sentia desejada novamente. Uma sensação muito boa, porém me causava um certo receio, medo de errar, o que infelizmente, acabou acontecendo.
- E aquela sua peruca?
- O que tem?
- Prefiro você com ela.
- Eu prefiro meu cabelo maior, mas loiro mesmo.
- Você fica bonita de cabelo curto também, mas você fica diferente com a peruca morena.
- Bom, de qualquer forma, obrigada.
- De nada. Mas você só colocou ela naquele dia?
- É, eu tinha acabado de cortar o cabelo, fiquei deprimida.
- Ah! Entendi.
- Mas você gostou tanto assim?
- Sim, achei um visual bacana. Ainda mais com o vestido preto e maquiagem preta.
- Há! Eu vou colocar ela um dia só pra você.
- Muito obrigado pela preferência.
- De nada.
E a conversa fluiu com temas dos quais não me recordo mais, mas me recordo de falarmos sobre cemitérios, goticísmo e coisas do tipo. Ele queria saber mais sobre mim, e fazia perguntas que na maioria das vezes eu não sabia responder ou ficava tímida. Então começou a ficar tarde, e decidimos ir embora.
- Você vai me acompanhar até o metrô então? – Eu perguntei pra ele.
- Sim, eu te acompanho. Eu também vou pra lá.
- Então vamos, está ficando tarde já, e já era pra eu estar em casa a mais de duas horas.
- Vamos sim.
Paramos no metrô e começamos a conversar, agora longe das pessoas e longe de nossos amigos. Tudo estava em silêncio quando ele perguntou:
- Você acredita em anjos?
- Sim, acredito. Por quê?
- E em demônios? Você também acredita?
- Acredito, mas... Por quê? – Eu respondi com um olhar de quem estava começando a ficar com medo de onde aquela história iria chegar. Afinal, não é qualquer pessoa que me pararia e me perguntaria se eu acreditava em ambos - aliás, nunca ninguém teve a iniciativa de perguntar isso pra mim.
- Você me fez de alguma maneira me sentir a vontade em lhe dizer isso, não sei o motivo. – Fiz uma cara como quem não tinha entendido a afirmação. – Eu sou um anjo, você acredita?
- Sim, e por que não?
- Não sei, as pessoas não costumam acreditar. Você conhece a história dos renegados?
- Pra ser sincera já ouvi tantas histórias, que atualmente não sei em qual delas devo acreditar, é tudo muito confuso pra mim ainda. Mas me conte a sua versão!
- Bom, eu sou um renegado. Não sei exatamente o porquê, apenas sei que sou. Os renegados são aqueles que quiseram algo mais do que eles podiam, e por isso foram expulsos do dito paraíso, com isso tornaram-se humanos, ou seja, anjos renegados.
- E você não sabe o motivo de estar aqui?
- Não, eu sei que foi por orgulho e eu sei que meio que por vingança também!
- Entendi. E se eu dissesse que eu sou um anjo também?
- Verdade?
- Sim, mas eu estou aqui por amor.
Quando ele começou a contar a história dele, na hora me veio na cabeça o meu anjo. Na hora eu pensei tê-lo encontrado novamente e que eu passaria então a entender um pouco mais sobre as coisas que aconteceram conosco. Mas eu estava errada, porque ele não era o meu anjo, ele era um anjo sim, mas não o meu. Com o tempo eu fiquei decepcionada por não ter encontrado nele o meu anjo, mas hoje entendo que o Ariel apareceu em uma hora na qual eu precisava muito dele, uma hora que eu precisava aprender com ele tudo o que ele sabia. E aprendi muita coisa com esse rapaz que hoje tenho uma admiração muito grande e sempre terei. Conversamos durante algum tempo, expliquei um pouco do que eu sabia sobre a minha história e ele me contou um pouco sobre os anjos renegados e os anjos caídos – anjos caídos são os que chamamos de demônios. - Após um longo tempo, percebi que ele estava um pouco ansioso, eu sabia que ele queria me beijar e então eu disse:
- Quando estou com vontade de fazer alguma coisa, eu faço. Eu não gosto de me arrepender de não ter feito o que eu queria fazer.
- Não sou muito de me arrepender das coisas.
Ficamos por um tempo olhando nos olhos e na boca um do outro, então eu concluí:
- Então faça o que você está com vontade, sem arrependimentos.
Nos olhamos por mais um momento e então ele me puxou pela cintura e me deu um beijo. Ninguém mais do que eu sabia e sentia o quanto eu esperei por esse beijo, aliás, acho que nem eu mesma sabia. Nosso primeiro beijo, pra ser sincera, foi bem desencontrado, mas eu não conseguia parar de beijá-lo, eu queria mais, meu corpo queria empurrá-lo, mas meu coração e minha alma o queria por perto. A sensação estranha de saber que eu o conhecia de outro lugar, mas não sabia explicar exatamente de onde me fazia querer ele mais perto de mim pra abracá-lo forte como se eu estivesse compensando todas as vezes em que eu não o tive por perto. E com a conversa que tivemos, eu tinha certeza absoluta de que ele era o meu anjo perdido, meu anjo renegado. Mas depois de um tempo eu preferi fingir que era apenas uma sensação estranha por saber que ele também era um anjo e um renegado acima de tudo. Eu não estava disposta e me enganar novamente, mas no fundo eu soube que era exatamente isso o que iria acabar acontecendo.
Começamos a conversar mais vezes depois desse dia. Não ficamos de novo, nem nada por quase dois meses. Se já era difícil encontrar com ele enquanto eu ainda estava trabalhando na mesma empresa, ficaria ainda mais depois de ter sido demitida, mesmo porque não tínhamos nem o telefone um do outro, só o MSN e raramente conversávamos por ele.
Eu continuei saindo com o Dimas, porém eu me sentia cada vez mais como se eu mesma estivesse me traindo. Temos uma amiga em comum, a Isa – uma menina super meiga e delicada. Na época estava com os cabelos curtos tipo moicano pintados de vermelho, olhos escuros e é um pouco mais alta do que eu. – Uma menina que sabe aproveitar a vida. Ela namora com a Nathaly, uma garota magra, cabelo preto no ombro, uma carinha de menininha toda delicada e olhos escuros. – Duas pessoas das quais são muito legais. Em um dia qualquer, sem nada pra fazer nos encontramos na casa delas. O Dimas foi logo depois de mim. Ficamos ouvindo a Isa tocar violão e cantar.
- Isa, já está ficando tarde e daqui a pouco não tem mais metrô. Hoje é feriado, então até eu conseguir pegar um ônibus e chegar no metrô vai demorar bastante – Eu disse apressada.
- É verdade Isa, eu vou embora também porque amanhã eu trabalho e acordo cedo, mas a gente marca outro dia pra vim e bagunçar de novo. – Completou Dimas.
Despedimo-nos das meninas e fomos embora. Estávamos descendo as escadas quando ele me propôs ir pra outro lugar.
- Eu não tenho dinheiro, mas tenho saldo no VR. Topa ir tomar alguma coisa perto da minha casa?
- Pode ser, mas eu não posso demorar muito, pego metrô ainda.
- Tranquilo gata, a gente divide uma garrafa de vinho e depois eu te levo até o metrô.
No meio do caminho, como eu estava com vontade de fazer uma coisa diferente e estávamos sozinhos, surgiu a ideia de irmos pra algum lugar depois. Desde que fosse perto e fosse barato, pois como ele estava sem dinheiro, eu me propus a pagar, porém eu também não estava com tanto dinheiro assim. Liguei pra minha tia e disse que ia dormir fora. Chegamos no hotel e não preciso deixar detalhes do que aconteceu mas posso dizer que essa foi uma transa bem diferente das outras que tive. - e não porque fizemos coisas diferentes, porque foi uma transa como qualquer outra. Depois desse dia, só ficamos mais uma vez e cada um seguiu pro seu lado. Eu preferi deixar as coisas como estavam, afinal, ele sempre saia com várias e sempre deixava a coitada apaixonada. Comigo seria diferente, eu tinha me apaixonado por ele, mas isso foi antes de conhecer o Ariel. Fiz a mesma coisa que ele fazia. E a partir daí comecei a ter minhas teorias em relação à homens altos e homens baixos. Mas um tempo depois minha teoria falhou então não compensa dizer qual era.
Por volta de um mês depois, quando eu entrei no MSN, encontrei o Ariel online.
- Olá rapaz, quanto tempo.
- Olá Cherry, a gente tem que marcar um dia pra sair.
- Opa, com certeza, mas antes temos que treinar nosso beijo né. Naquele dia do metrô a gente mais se desencontrava do que se beijava.
- Mas naquele dia eu tava chapado né, tinha bebido muito. Mas meu beijo é melhor do que aquele.
- Então tudo bem, eu topo sem nenhum problema, pra quando seria?
- Pode ser na sexta?
- Tá, pode sim. Mas eu trabalho no sábado.
- Eu também trabalho, não se preocupe.
Marcamos de nos encontrar na padaria perto do trabalho dele.
- Olá, demorei!? – Cheguei com um sorriso de orelha à orelha.
- Olá Cherry, chegou bem na hora. Vou pedir um copo pra você.
Estávamos eu, ele, o Thiago, a Juliana, o Luís e um amigo deles, o Vanderlei. O Ariel e o Thiago dirigiam-se a si mesmos como “Paizão” e “Filhão”, e então o Ariel fez um comentário mais como uma pergunta do que propriamente um comentário.
- Não sei se eu prefiro essa aqui ou você, as duas são boas, mas com uma diferença. – Ele me “comparou” a um copo de cerveja, que por sinal ele conseguiu fazer esse comentário não parecer tão machista, muito pelo contrário, fez parecer romântico como um elogio à mim. Enquanto ele tomava a cerveja, ele me beijou e perguntou. - Paizão! Tenho uma pergunta. Qual a diferença entre essas duas loiras?
- Uma você está bebendo e a outra você esta abraçando e beijando. – Respondeu ele com uma cara como de quem não respondeu o que queria.
- Não paizão. A diferença é que essa é gelada, e essa aqui – Nós estávamos sentados e ele colocou seu braço em volta de mim me puxando pra mais perto dele. – essa aqui é quente! – E me deu um selinho.
- Eu até falaria isso, mas eu achei que talvez pudesse ofendê-la.
Não me ofendeu pra falar a verdade, me senti elogiada por dentro, só não soube onde enfiar a cara depois.
Ficamos na padaria até por volta das 23:00 e de lá fomos para outra “padaria” – que mais parecia com um barzinho ou lanchonete – na frente do metrô Liberdade. Um tempo depois a Juliana foi embora, e o metrô iria fechar, eu e o Ariel já estávamos preparados para irmos embora pra outro lugar. E então o Vanderlei disse que já estava indo também e que conhecia um lugar perto da casa dele que nós iríamos gostar. Então fomos os três embora, ficando no barzinho apenas o Thiago e o Luis.
Quando chegamos na estação da lapa vimos um hotel porém não havia mais vagas, e já se passavam da 00:00, ou seja, não tinha mais trêm ou metrô disponível também. Então ele disse que nós poderíamos ficar na casa dele e do amigo sem problema, afinal, ele nos levou até lá. No caminho para a casa dele, o Ariel me deu uma flor vermelha e disse:
- Você pediu romantismo não foi? Essa flor é romântica.
- Obrigada, vou guardá-la com todo o amor e carinho. – Coloquei a flor na orelha e dei um beijo nele.
Queria ter ela guardada ainda, o Ariel foi um amigo que estará sempre no meu coração, um amigo que me fez enxergar muitas coisas e me ensinou muitas formas de se viver.
Demos uma parada no posto de gasolina pro Ariel ir ao banheiro, e continuamos nosso trajeto pra casa do Vanderlei. Chegando lá, conversamos um pouco e logo depois, eu e o Ariel tomamos um banho enquanto o Vanderlei foi dormir. E então aconteceu, a sensação que até aquele momento eu jamais havia sentido antes, era como se naquele instante fossemos um só. Como se ele realmente fosse meu anjo perdido.
Eu conseguia sentir o cheiro dele mesmo se eu parasse de respirar. Foi tudo tão intenso que eu fiquei quase uma semana me sentindo como se estivesse nas nuvens, aliás, eu estava nas nuvens. Eu me via no meu antigo jardim, correndo pelas mais diversas flores possíveis. Uma sensação inesquecível, uma sensação inexplicável. A sensação de conhecer ele não estava errada, o que estava errado era quem eu pensei que ele fosse.
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