Eu estava de volta no meu jardim com ele. O cheiro do jardim se misturava ao dele, ficando assim um cheiro do qual eu nunca tinha sentido. Eu estava feliz ao lado dele novamente. Nós corríamos de um lado pro outro, como duas crianças. Deitamos na grama e ficamos nos olhando por um bom tempo. Afinal, tínhamos a eternidade para sermos felizes novamente.
E como já era de se esperar, pra minha decepção eu me vi deitada na mesma cama, no mesmo quarto, na mesma casa que eu me deitava pra dormir todas as noites, e percebi que eu estava sonhando, lembranças de uma época que não voltará. E então começou mais um dia de trabalho. Levantei da cama e como se fosse um ritual, desci as escadas e acendi um cigarro. Me arrumei, coloquei meu fone de ouvido e fui rumo ao trabalho. Chegando lá eu fiquei distante das pessoas e aos poucos foram percebendo.
- Você tá bem Mayara? – Perguntou Henrique.
- To sim, problemas pessoais, mas vai passar.
- Ah tá! Se você quiser conversar com alguém, você sabe que pode contar comigo né!?
- Obrigada Rick.
- Eu não gosto de te ver tão quieta desse jeito.
Eu dei um sorrisinho e sentei na minha mesa.
Fiquei a tarde inteira pensando em como o mundo era pequeno. Não conversei com ninguém, tirei minhas pausas sozinha, apesar de não fazer muita questão de tirá-las, eu tinha que tirar pelo menos pra respirar um pouco de ar puro. - ou pelo menos o mais parecido com ar puro. - Todos tinham percebido que eu não estava bem. Eu fiquei a tarde inteira pensativa, quieta e sem conversar com ninguém. No caminho pro metrô o Jey me perguntou:
- E ai Cherry? O que houve que você está tristinha hoje? É a história do maluco lá?
- É, eu ainda to tentando entender o que é que aconteceu. Eu to com medo de perder ele de novo.
- Esquece essa história Cherry, você sabe que o que tiver que ser vai ser. Você nem sabe se o cara que você tá saindo vai ficar com ela mesmo.
- Eu sei Jey, eu sei o que vai acontecer, eu vi. Mas não estou preocupada com isso. Eu estou preocupada com o Ariel, ele vai sofrer muito ainda.
- Cherry, esquece essa história. Deixa as coisas acontecerem. Hoje você ouviu o Elias, esse mês eles não querem ver ninguém zerado e você não vendeu nenhum hoje.
- Mas é difícil esquecer assim. Eu sei que eles não vão ficar nem nada, mas ele gosta dela ainda, e depois disso tudo, eu sei que se ela desse uma chance pra ele, pode ser que ele aceitasse.
- Então ele não gosta de você Cherry.
- Gostar ele gosta de mim, mas ele gosta dela primeiro. A gente não namora, mas é difícil ver ele sofrer assim. Mais difícil ainda é saber tudo o que ela vai falar pra ele, ele vai sofrer muito com isso.
- Mas Cherry, você começou a ficar com ele não faz nem duas semanas direito e já tá assim?
- É complicado Jey. Talvez quando eu terminar meu livro você entenda melhor o que eu sinto por ele.
- Eu falo isso porque eu gosto de você Cherry. Você é uma pessoa bacana e que merece ser muito feliz. Não fica pensando muito nisso porque só vai te prejudicar.
- Obrigada Jey, também gosto de você e te acho bacana também. Mas, sei lá... é complicado. Enfim, acho que o tempo é quem dirá o que vai acontecer realmente. Apesar de que eu já sei que não vou ficar com ele, ele não vai ficar com ela também, mas até ele perceber as coisas vai ser muito dolorido pra ele.
Quando eu cheguei em casa, entrei na internet e passei a primeira parte do meu livro pro computador. Naquele momento o que me manteve em pé e me distraia, era pegar meu caderno e começar a escrever.
Alguns dias depois eu consegui finalmente falar quase tudo pra Thaisa. Ela continuava muito abalada, o que eu já esperava. E eu sei que isso ia passar. Eu contei a história de uma forma e ele contou de outra totalmente diferente, então eu disse que ela teria liberdade pra escolher em quem ela acreditaria, é claro que ela preferiu acreditar nele. Eu disse que ela era uma menina bonita, e que não merecia passar por isso. Apesar de que cada um é cada um, se ela prefere ser iludida por ele, a consciência é dela. Ela deve saber muito bem aonde está pisando.
- Talvez você se impediu de ser feliz, justamente por estar com ele Thaisa.
- Você está falando do Ariel?
- Sim, eu sei que você sabe que ele gosta de você.
- Sim, eu sei. Mas eu não fiquei com ele porque eu não quis, não porque eu estava com o Roberto. Eu considero o Ariel como amigo. Tenho um carinho como amiga por ele. Nada mais que isso.
Eu sabia que ela não iria dar uma chance pro Ariel, mas eu me sentia triste pelo Ariel. Me sentia aliviada por ouvir dela essas palavras, mas meu coração ao mesmo tempo estava triste, porque o amor que eu queria ter dele, ele tinha por ela.
Eu esperei tanto pelo dia da minha despedida com o Ariel e quando esse dia chegou eu não conseguia pensar em mais nada. Eu havia comprado um livro pra dar de presente pra ele e antes de ir pro trabalho fui correndo na papelaria comprar uma caixa de presentes. Todos do trabalho já sabiam que eu ia me encontrar com ele, e começaram a dizer:
- A noite vai ser boa hein Cherry. Quero ver a hora que vai chegar amanhã.
- Será que eles vão se prender no quarto de novo? Aproveita hein.
Quando chegou o horário de ir embora, fui correndo me encontrar com ele nas escadas de fora do metrô liberdade. Quando eu cheguei minha alegria se transformou em tristeza. Ele estava parado na escada conversando com ela. Eu sabia o que ela estava falando com ele, e isso me deixou cabisbaixa, pois eu sabia que naquele dia eu não teria nenhuma chance de ter alguma coisa a mais com ele. Eu pensei sinceramente em voltar e esperar ela ir embora, mas eles já tinham me visto, então não tive escolha. Segui reto subindo as escadas como se eu estivesse morrendo. Subi lentamente cada degrau. Então quando eu estava no topo eu não sabia se eu apenas falava oi pros dois, se dava um beijo no rosto de cada um e em quem eu daria primeiro, se eu desse um beijo nele e nela não, iria ficar estranho. Se eu desse um beijo no rosto dele primeiro e depois no dela, provavelmente iria ficar parecendo que eu estava querendo demarcar território. Então decidi cumprimentá-la primeiro e depois ele. Tudo bem que ela praticamente virou o rosto pra mim, mas fingi que nem percebi.
Só foi estranho, porque eu me senti como se eu fosse uma intrusa na frente dos dois, tenho certeza que eles pararam a conversa no momento em que me viram subir as escadas. Provavelmente estavam falando dos dois ainda. Enfim, eu achei que o meu dia fosse começar ali, mas ao contrário de começar, ele acabou ali. Logo depois ela foi embora e ficamos eu e ele sozinhos.
Levantei a mão esquerda onde estava pendurada a caixinha de presentes dentro de uma sacola plástica da papelaria.
- Seu presente!
- O que é isso?
- Eu não sei se você vai gostar, eu tenho um também. Comecei a ler segunda e até agora eu to gostando apesar da leitura ser um pouco complicada. – eu desisti quando cheguei na página 50.
Ele abriu a caixinha, na qual havia na parte de cima da tampa um cachorrinho do lado esquerdo todo peludinho, com pelos lisinhos, o rosto era branquinho só com uma bolinha em volta dos olhos na cor marrom. Do lado direito tinha um gatinho misturado com cinza e branco. E nas laterais da caixa tinha escrito “Eu e você” de um lado e “Juntos para Sempre” do outro lado.
- Você não acha que é muito romance pra mim não?
- Não, porque você é romântico.
- “O Morro dos Ventos Uivantes”! Legal, é a mesma autora do “Crepúsculo”.
- Não, você leu errado. Tá escrito que é “O livro favorito de Bella e Edward da série Crepúsculo”.
A maioria das pessoas sabe que esse livro é um clássico da literatura inglesa, mas era uma nova edição. Tinha uma capa preta com o nome da autora e o nome do livro na parte de cima com letras engraçadas na cor branca e o desenho no meio era uma flor branca muito linda. Em baixo tinha os dizeres escrito em vermelho: “O amor nunca morre”.
- Eu só vou ler porque você me deu, e depois vou guardá-lo com todo o carinho.
- Esse livro é um clássico, se a sua mãe ver que você tá lendo ele...
- Ela vai achar que eu estou apaixonado – Ele me interrompeu.
- Não, ela vai achar que você está louco. Haha. Ela deve conhecer a história do livro, é da época dela.
- Mas a minha mãe não é velha.
- Não importa, qualquer pessoa com no mínimo 30 anos de idade conhece um pouco da história, pelo menos já ouviu falar do livro.
Conversamos por mais um tempo, e ainda não tínhamos nos beijado ainda. Então ele comentou:
- Eu não acho que vá rolar alguma coisa hoje Cherry, eu não to no clima sabe. Não to legal. Nem consigo te beijar. Vou dar pouco de mim.
- Se você me der pelo menos os 48% do primeiro dia, eu já me daria por satisfeita, mas eu te entendo. Não quero que nossa despedida seja assim. Você quer conversar?
- Não Cherry, deixa quieto, coisa minha. Vamos pra casa. Deixa pra amanhã, hoje não tem clima. Você sabe. – Propôs ele com uma cara de quem iria explodir a qualquer momento.
- Tudo bem, deixa pra outro dia então.
Dei um abraço nele, ergui meus pés e deu um selinho nele, então ele me deu um beijo e afundei meu rosto no peito dele colocando minhas mãos no peito dele, fechadas. Descemos a escada e entramos no metrô. Antes de irmos embora, decidimos parar um pouco no piso de cima do metrô, como era de costume. Enquanto descíamos a escada rolante eu comentei com ele:
- Gabriel... é esse o seu nome no meu livro.
- E por que não o meu mesmo?
- Escritores não colocam o nome verdadeiro das pessoas quando elas ainda estão vivas, me disseram que dá azar. - Apesar que um tempo depois preferi deixar os nomes verdadeiros mesmo pra cada um saber quem era quem.
- Ah tá, então coloca Turiel, ou deixa Gabriel mesmo, é meu codinome.
- Tudo bem, eu não ia mudar mesmo.
Ficamos olhando os trilhos do andar de cima, nos abraçamos e nos beijamos novamente, enquanto eu olhava fixamente para os trilhos eu falei:
- Apesar de saber que não vai acontecer nada entre vocês, posso estar enganada. Mas mesmo que aconteça, você vai perceber que ela não é exatamente a pessoa que você procura.
- Pode até ser, mas... sei lá...
- Eu to dizendo o que eu sei que vai acontecer. A única coisa é que eu tenho medo.
- Por que medo?
- Tenho medo de você perceber tarde demais, tenho medo que você sofra mais.
- Eu quero arriscar.
- Não é isso Ariel, você não entende.
Eu sabia que ele iria se decepcionar quando soubesse que ela era uma menina que não gosta de enxergar a verdade, ela prefere a mentira à verdade. Mas não foi isso o que eu quis dizer com “perceber tarde demais”. Eu tinha visto ele com uma moça que não era ela, eu via os dois sorrindo, felizes. E tinha medo que ele tentasse se arriscar ainda mais por um amor que não iria dar em nada, pois se ele estava cego por ela talvez ele não conseguisse enxergar o verdadeiro amor dele. Mas eu preferi deixar ele perceber sozinho, pois eu não poderia interferir na decisão dele. Eu sabia que ele só seria feliz com essa mulher que eu tinha visto, mas eu não conseguia entender o porque eu não era essa moça já que ele era meu anjo. Foi difícil eu conseguir enxergar que ele não era quem eu achava ser.
- Será que dá choque mesmo se alguém cair nos trilhos? – Eu tentei puxar outro assunto.
- Dá sim, e é aquele lá. – ele apontou para o trilho que tinha eletricidade.
- Espera, qual que é? Aquele lá?
- É, esse mesmo, tá vendo?
- Sim, mas então espera um pouco. Quer dizer que aquele dia que eu cai no vão do metrô eu levei choque sem saber?
- Ahn!? – Ele fez uma cara de quem não entendeu.
- Lembra do dia que eu cai no vão do metrô voltando do médico? Então, eu pisei nessa parte do trilho. Então quase que eu morri mesmo.
- É, realmente Cherry. Mas ele não andou, então não conta.
- Claro que conta Ariel, quando o rapaz me tirou de lá o vagão estava começando a andar, tanto que o meu pé bateu na porta com tudo.
- Ah! Já imaginou se você tivesse ficado lá?
- Ia ser churrasquinho de Cherry aos pedaços, credo.
- Já pensou!?
- E... sabe... Você fala tanto que um dia eu vou te odiar e tudo, mas mesmo se você um dia me jogasse nos trilhos, mesmo assim eu continuaria gostando de você, mesmo se eu ficasse sem nenhum movimento.
- Pô, ai você ia ficar se comunicando por piscadas: “Mayara, você ainda gosta do Ariel? Dê duas piscadas se for sim e uma se for não!”
- E eu daria duas. Mas eu estou falando sério. Queria que você entendesse que não importa o que você faça pra eu odiar você, quanto mais você tentar pior vai ser, entenda. Eu quero e preciso passar pelas mesmas coisas que você.
- Eu só não entendo como você se apaixonou tão rápido por mim Cherry, não consigo entender isso!
- Não foi por você. A partir do momento em que eu senti o seu cheiro eu sabia que era você.
- Se for pelo cheiro eu te dou meu perfume. Eu já disse que eu não sou quem você pensa que eu sou Cherry. Não se iluda.
- Não é o perfume que você usa porque eu não sinto cheiro, é o SEU cheiro interior. Eu adoro o seu cheiro, ele é doce. E eu sinto que você é o meu anjo. – Abracei ele com toda a força que eu podia e nos beijamos.
- Vamos pra casa Cherry. Está ficando tarde, dá um beijo aqui.
- Não quero ir embora, vai você primeiro.
- Não Cherry, vai lá.
- Não quero, vem cá.
Dei um abraço mais apertado ainda sentindo minha garganta ficar seca e meus olhos se encherem de lágrimas, me segurei e quando olhei pra ele de novo eu disse:
- É melhor chorar do que guardar pra gente.
- É verdade, mas eu não quero chorar.
- Não é o que parece. Mas quem sou eu pra falar isso!? Eu estou fazendo a mesma coisa.
- Sabe quando fica vindo e voltando? É horrível essa sensação.
- Eu sei como é, acredite. Estou passando por isso agora.
Ficamos ensaiando mais uma vez pra irmos embora e não resisti, abracei-o de novo, dei um último beijo, abracei-o mais forte ainda, me afundando no peito dele e comecei a chorar, sem conseguir olhar pra ele dei um último abraço apertado sentindo minhas lágrimas caindo em meu rosto e fui embora sem nem mesmo olhar pra trás, não queria que ele me visse chorando. Desci a escada rolante sentido Jabaquara e quando cheguei à plataforma, já com as lágrimas secas em meu rosto o vi do outro lado, sentido Tucuruvi. Fiquei olhando por um tempo pra ele e me lembrei do coração de tecido vermelho que eu queria ter dado à ele a um tempo que eu achei perto de casa jogado no chão da rua.
- Eu esqueci de te dar uma coisa. - Falei o mais alto que pude pra ele conseguir ouvir.
Virei as costas, subindo as escadas correndo e fui me encontrar com ele do outro lado. Abri a mochila e comecei a procurar, pra minha tristeza eu não consegui achar. Então ele falou:
- Não tá ai Cherry, depois você me dá.
- Tá aqui sim, eu coloquei aqui, eu vou achar, não é possível. Eu não tirei daqui. Como que some desse jeito?
- Cherry, é sério. Depois você me dá, eu vou entrar no próximo vagão.
- Tá, eu te dou depois, vai lá. – Fechei a mochila, me levantei como quem já estava indo para o outro lado novamente quando ele disse:
- Vem cá, me da um beijo.
Ele entrou no vagão e lá se foi. No caminho de volta fiquei ouvindo minhas músicas e pensando em toda aquela situação. Eu sei que seria egoísmo da minha parte, mas por um momento eu queria ter os poderes do esquecimento, queria poder fazer com que ele esquecesse a história do Roberto e da Thaisa. Mas como isso é mais difícil, queria ao menos conseguir fazer com que eu não tivesse falado nada pra ninguém, ficar com esse peso só pra mim. Mas no fundo eu sei que eu fiz a coisa certa. Afinal, não tem coisa pior no mundo do que a mentira, mesmo quando essa mentira não é uma mentira, e sim uma omissão. E como o Ariel mesmo disse depois: - Eu prefiro sofrer com a verdade, a viver uma ilusão na mentira.
O Ariel é uma pessoa que você pode contar quando você precisar, se você for amigo dele, ele te ajuda em qualquer situação. Qualquer assunto que você fale com ele, ele vem com suas sábias palavras que te confortam seja qual situação você esteja. Um rapaz cuja beleza não é daquelas que todos caem a seus pés. Ele não é loiro nem tem olhos azuis, ele tem cabelo escuro e olhos cor de mel. A boca dele é carnuda e mesmo os dentes caninos parecerem dentes de vampiro, são perfeitos, e as mordidas são mais gostosas ainda. Ele não é alto nem baixo, não é gordo nem magrinho. Ele é um rapaz com aparência igual aos outros, porém tem um charme diferente, um charme próprio e incomparável. Às vezes me pego pensando se ele realmente é apenas um renegado, ou se ele é mais do que isso. Ele mesmo já me disse uma vez que tem dupla personalidade, eu conheço uma delas, a outra conheço pouco. Porém gosto de ambas.
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